A Seleção Brasileira e seu realismo mágico



FOTO: AFP

Foi a maior derrota do futebol brasileiro. Um 7 a 1 para a Alemanha, no Mineirão, atirou a autoestima nacional na lona, reacendendo em fagulhas o rodrigueano Complexo de Vira-Latas. Não por completo, nada de chamas altas, porque no cortejo do tempo houve cinco título mundiais, o que ninguém mais conseguiu. Lambendo, então, as feridas na imagem que a surra impôs, a CBF, comandada por um dirigente que se revelaria subitamente alérgico a viagens internacionais, recorreu à mesmice. Ignorou o clamor por Tite e recolocou Dunga no cargo, acreditando na fórmula desgastada. O futebol ruim seguiu e a voz rouca das ruas bramia assustadiça: ‘A geração é ruim, a geração é ruim’.
Não eram as ideias, mas o pé-de-obra o (ir)real problema. O triunfo da carochinha sobre a inteligência. Premido contra a parede, o tal cartola com medo de avião capaz de atravessar oceanos, cedeu. Tite, enfim, assumiu as rédeas. E a pobre geração tornou-se, como num sortilégio do Mister M, rica. Do pavor da inédita ausência em uma Copa, fez-se uma sequência de vitórias e classificação antecipada, com sobras, sem sustos!

A Seleção entrará no Mundial da Rússia, o subsequente aos 7 a 1, como uma das favoritas ao título, tendo entre os titulares os dois jogadores que protagonizaram as duas negociações mais caras da história do futebol (Neymar e Coutinho). E o presidente da CBF, aquele com pruridos de usar o passaporte, provavelmente verá pela televisão.
Eis a contribuição do futebol brasileiro ao realismo mágico, uma das mais fecundas escolas literárias do século XX. Garcia Marques e sua Macondo, Borges e sua biblioteca de Babel e Cortázar e seus novelos narrativos não dariam conta.

Nunca ficou tão explícita a dissociação entre as potencialidades do futebol brasileiro e quem o comanda, especialmente no topo da estrutura. Os deuses satíricos da bola deram o seu passa-moleque. O melhor técnico nacional de momento foi arregimentado não por filosofia e mérito, mas no desespero de causa de um cartola investigado no exterior por tenebrosas transações. E uma geração descrita como deficiente viu-se, repentinamente, eficiente. Segue o jogo!



MaisRecentes

Caballero sem fina estampa e o tango peruano



Continue Lendo

A trágica e farsesca história de Marrocos na Copa



Continue Lendo

Em ‘casa’, Sérvia impõe sua técnica sobre a Costa Rica



Continue Lendo