No bipolar Brasileirão, o futebol é obra inconclusa



Na 10ª rodada, Grêmio e Corinthians fizeram o jogo do ‘ápice’ de identidade em um campeonato carente dela (FOTO: Fabio Gomes / Raw-Image)

O Brasileirão de 2017 está fazendo valer o clichê de “campeonato mais difícil do mundo”. A questão é como essa dificuldade se manifesta, na forma de grandes jogos e times com “densidade” de jogo, ou um nivelamento por baixo, com obras inconclusas, que não se sustentam, não têm longevidade. Primeiro, observemos a expressão numérica do pretenso equilíbrio. Para isso, basta espiar a classificação ao fim do primeiro turno e cotejá-la com a da 13ª rodada do segundo. Ficamos frente a frente com dois mundos à parte, quase sem pontos de encontro. A Narciso nem se permite rejeitar o que não é espelho por falta de alternativa. O exemplo mais gritante é o do líder Corinthians. que teve assombroso aproveitamento de 83% na primeira metade, um recorde na era dos pontos corridos, e, por ora, encontra-se na zona de rebaixamento do returno. Uma bipolaridade ludopédica!. O São Paulo fez caminho inverso. Depois de terminar a 19ª rodada na zona do rebaixamento com 19 pontos (módicos 33% de aproveitamento), o Tricolor é o vice-líder do returno, com cinco pontos a mais do que acumulara no turno, ainda que tenha feito seis jogos a menos. A equipe só não lidera esse extrato da disputa porque tem um gol a menos de saldo que o Cruzeiro.

Se olharmos os blocos das extremidades em um turno e outro, aí é que verificamos a existência de um duplo universo, como se estivéssemos falando de campeonatos separados. O G4 tem apenas um integrante repetido nos dois turnos: o Palmeiras, quarto colocado em ambos. Já a zona do rebaixamento não tem uma repetição sequer. Regularidade, adjetivo tão evocado como condição sine qua non de campeonatos por pontos corridos, restringiu-se ao primeiro turno do Corinthians e sequências curtas, sem fôlego, de alguns times.

O fato de o Corinthians, em que pese o tombo de rendimento, ainda ter uma vantagem graúda na liderança endossa a ideia de que a inconsistência foi regra no campeonato. Os principais perseguidores desperdiçaram as chances que tiveram de uma aproximação real. Não conseguiram se impor contra equipes que lutam contra o rebaixamento, viveram em uma gangorra. Um fato a reforçar como as equipes no Brasil, que trocam de técnico quando qualquer crise se avizinha, têm dificuldades em estruturar projetos, não conseguem se encorpar minimamente, e pagam o preço da flacidez de desempenho. O último exemplo, e mais eloquente, foi o Palmeiras. Na semana em que poderia virar o jogo, quando, sob o comando do promissor Aberto Valentim, esboçava um futebol agradável, dependendo apenas de suas forças, fez apenas um ponto ao empatar com o “desobrigado” Cruzeiro, em casa, e perder o confronto direto para o arquirrival. Será difícil apagar a sensação de que a esquizofrênica fórmula de apostar em um técnico no início do ano (Eduardo Baptista) à espera do retorno de outro, como se ungido fosse (Cuca), foi fatal para o clube alviverde.

Para além dos números e circunstâncias, há o elemento mais relevante de todos: o que vemos em campo! Independentemente de preferências estilísticas, o fato é que, curiosamente, identificamos apenas na primeira parte do campeonato trabalhos com solidez. Isso se manifestou em antepostos. O Corinthians, pautado na dupla capacidade de se defender bem, com admiráveis concentração e organização, e de ser letal nas poucas chances criadas. E o Grêmio, com um jogo mais vistoso, de toque de bola, preferindo, na contra-corrente, tomar a iniciativa com técnica e autoconfiança. O cume dessa dualidade veio na décima rodada, no confronto direto, quando o estilo corintiano venceu o gremista em Porto Alegre em jogo que retratou fielmente as identidades. O Corinthians conseguiu exercer seu padrão até o fim do primeiro turno. O Grêmio, depois disso, teve apenas chispas do seu modelo, perdeu o ímpeto. O fato de ter negociado Pedro Rocha, um dos pilares do seu jogo, e ter passado a dedicar-se prioritariamente às duas competições de mata-mata que corriam paralelas, foram determinantes.

Há duas opções de desfecho para o Brasileirão de 2017. Se o Corinthians for o campeão, ainda o mais provável, teremos um raro caso em que a identidade de jogo realizou-se à perfeição no primeiro turno e, depois de desandar no segundo, beneficiou-se da ausência total de identidade dos adversários, Se perder o título para Santos, Grêmio ou Palmeiras, porém, a perda total de identidade no segundo terá sido fatal, com o proveito disso sendo tirado na reta final por um time que, se não teve uma identidade clara, conseguiu ser oportunista no momento decisivo.



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