Guttman, uma bela e vitoriosa trajetória



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Se o húngaro é a única língua que o diabo respeita, como nos adverte o romance “Budapeste”, de Chico Buarque, o futebol do pais centro-europeu deve privar de solene respeito dos deuses da modalidade. Ao menos pelo legado que deixou. Se hoje é vistoso retrato na parede, foi, e muito, determinante para o desenvolvimento do jogo. Um clube local não avança à fase de grupos da Liga dos Campeões desde 2009/10, quando o Debreceni conseguiu a façanha, e a última participação da seleção em Copas foi há 31 anos, no México, em 86. Essa fragilidade contrasta com a força exibida entre os anos 50 e 60, no pós-guerra, época da transição entre o amadorismo e o regime profissional. O símbolo maior foi a seleção vice-campeã no Mundial na Suíça, em 54. A exemplo da Holanda de Rinus Michels e Cruyff, com seu futebol total em 74, a equipe de Puskás, Czibor e Kocsis, trio que faria fama e fortuna mais tarde na Espanha, perdeu a final para a Alemanha e, mesmo assim, deitou raízes eternas na história. A média acima de três gols por jogo – na primeira fase goleou a mesma Alemanha por 8 a 3 -, e com Hidegkuti de ‘falso 9’ (a ideia, portanto, não é novidade) assombraram o mundo. Foi nesse período que um ex-jogador nascido na capital Budapeste teve interferência determinante nas estratégias e táticas do jogo e na elevação de um clube de potência nacional a continental. Seu nome: Béla Guttman,

Li há poucos dias a única biografia de Guttman que encontrei em português. É um grande serviço à memória futebolística a tradução da editora Estação Liberdade. Escrito pelo alemão Detlev Claussen (“Béla Guttman – uma lenda do futebol do século XX”), o livro conta em menos de 200 páginas a trajetória do filho de dançarinos que foi uma espécie de nômade do futebol quando globalização era termo desconhecido. A teia de eventos que posicionam Guttman no proscênio do futebol mundial é impressionante. Vagou por diversos países entre Europa e América do Sul, sempre ficando curto tempo nos clubes. A leitura não é conclusiva sobre o que explica esse perambular frenético. O técnico preconizava não ser recomendável ficar mais que três anos em um clube, evitando o desgaste natural de um ambiente (Guardiola parece beber dessa água), mas os constantes pleitos contratuais recusados por dirigentes dão geram dúvidas sobre a razão efetiva para essa “andarilhagem”. A saída do Porto depois do título nacional para dirigir o rival Benfica seria uma expressão da filosofia. Já o adeus ao São Paulo, em 58, e ao Benfica, logo após o bicampeão europeu, em 62, tiveram como razões precípuas o dinheiro.

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As passagens por São Paulo e pelo Benfica, aliás, foram os pontos luminares de sua carreira. Elas agigantaram e eternizaram sua biografia. Guttman assumiu o clube brasileiro após excursão do mítico Honved – coração da seleção húngara de 54 – pela América do Sul. Em meio ao caos político que vivia a Hungria, com sua revolução sendo estancada por tropas soviéticas em plena Guerra Fria, aceitou convite do São Paulo e conduziu o clube ao seu único título paulista em 13 anos. O livro relata as influências que suas teorias e práticas tiveram no Brasil, apesar do pouco tempo de trabalho. Além de dinâmica de treino incomum para os padrões da época, com atividades de duas horas específicas para cada posição e insistência em fundamentos como passe e chute, instituiu o 4-2-4, esquema que havia consagrado a Hungria no Mundial de três anos antes, como substituto do tradicional WM. Vicente Feola, que trabalhou com Guttman no São Paulo, levaria esse desenho à Seleção de 58 e com ele seria campeão do mundo.

No Benfica do início dos anos 60, o treinador deu fim à dominação do Real Madrid ao conquistar dois títulos europeus tendo na equipe o moçambicano Eusébio, jogador que “pescou” após indicação. Os madrilenhos eram, até então, os únicos campeões continentais – penta entre 56 e 60. Na primeira final, em Berna, superou o Barcelona dos seus compatriotas Kocsis, Czibor e Kubala, integrantes da diáspora húngara de 56. No ano seguinte, o mais ilustre dos seus conterrâneos, Puskás, foi a vítima na eletrizante final de Amsterdã. No time espanhol havia ainda Di Stéfano, argentino que, para muitos, foi o maior jogador antes de Pelé. Em dois anos, colocou o Benfica em evidência e deixou o clube na sequência porque teve recusado pedido de aumento salarial. Daí origina-se uma das histórias mais lendárias do clube lisboeta. Enraivecido, o treinador teria rogado uma praga: nunca mais o Benfica seria campeão continental. Se por coincidência ou feitiçaria, o fato é que até hoje o time só bateu na trave, sendo derrotado quatro vezes em finais da Liga dos Campeões.

O migrante Guttman também passou por Argentina (Quilmes), Itália (Padova, Triestina e o poderoso Milan), Uruguai (comandou o Peñarol), entre outros. Comandou o Peñarol na derrota para o Santos de Pelé, na final da Libertadores, perdendo a chance de ficar cara a cara no Mundial Interclubes justamente com o Benfica que abandonara meses antes. Um entrelaçamento de destinos de um protagonista de época em que o futebol ia se popularizando mais e mais. Como outras figuras fundamentais desse período, a exemplo do inglês Jimmy Hoogan e do próprio técnico da seleção Gustav Sébes, não é conhecido das novas gerações. O livro de Detlev é uma rara fonte em português para conhecimento e preservação de tão rica história.



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