Neymar, entre a guilhotina e ‘la vie en rose’



Neymar não estava sentado na escadaria da igreja Saint-Étienne-du-Mont, no Quartier Latin, em Paris, e foi capturado por uma carruagem que o conduziria a um idealizado passado de requinte cultural na capital francesa. Ao contrário de Gil, personagem de Owen Wilson em “Meia-Noite em Paris”, o atacante não foi fisgado pela nostalgia de um tempo romantizado, mas por seduções do presente. Muito dinheiro, ambições esportivas – ser melhor do mundo e elevar o patamar internacional de um clube – e ambiente repleto de brasileiros. Independentemente do peso que cada fator teve, inegável a atratividade.

O ser humano é mais complexo do que nos fazem supor as assertivas convictas e em poucos caracteres destes tempos de redes sociais. Assim como na busca de Gil havia muito de fábula (“Nunca estamos satisfeitos porque a vida não é satisfatória” é o leitmotiv do filme do gênio Woody Allen). O homem busca a vida em rosa (“La vie em rose”), como na canção tornada célebre por uma famosa parisiense: Édith Piaf.

Nesses dias que separaram a informação do “sim” ao PSG da concretização do negócio astronômico, Neymar esteve com o pescoço direcionado para a afiada guilhotina da crítica. A interpretação hegemônica deu tom herético à troca. O tamanho das equipes, com tudo que isso pode significar, deu carne à sentença principal. Como se os outros fatores já citados (dinheiro, atmosfera e inéditas ambições esportivas) tivessem peso menor e não movessem um indivíduo.

Uma escolha dessas têm, certamente, seu quinhão de tortura. Por absurdo que possa soar diante do glamour que revolve Paris – Gil que o diga! – e a quantia envolvida na transação, não deve ter sido fácil trocar a certeza vivida em Barcelona pelas incógnitas no PSG. Neymar poderá fazer passeios noturnos pela Pont Alexandre III, sobre o rio Senna, como Gil, sempre se questionando sobre o caminho que seguiu. A vida não é satisfatória! Mas, levando ou não o clube ao título europeu e sendo ou não eleito o melhor do mundo, provavelmente dirá, como em outra canção eternizada por Piaf: ‘Je ne regrette rien” (Eu não lamento nada!).



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