Do ‘gênesis ao apocalipse’, Felipe Melo tropeça no verbo



FOTO: Cesar Greco/ Palmeiras

No início foi o verbo…. e no fim também. A ruidosa, intensa e curta passagem de Felipe Melo pelo Palmeiras foi permeada por impressionante verborragia do jogador. No ambiente em que muito se reclama de declarações excessivamente protocolares de jogadores (uma meia verdade), o volante reinou. Se fôssemos escrever um breviário da linha do tempo “parlamentar” de Felipe Melo no clube, seria necessário cortar muitas passagens. Quase não houve jogo sem uma entrevista feroz, com frases de efeito, queixas e exclamações. Uma overdose de blablablá para sustentar um personagem.

No início foi o verbo, que se tonaria profecia semanas depois em Montevidéu: ‘Se tiver que dar tapa na cara de uruguaio, vou dar’
O fim foi construído também pelo verbo, em áudio vazado em tempos de vazamentos seletivos e seletos: ‘Com esse cara (Cuca) não trabalho. Esse cara é covarde, mau caráter, mentiroso..’
Palavras regadas a champanhe, segundo o mea-culpa do jogador, mas fatais…

De alguma forma, o Palmeiras contratou Felipe Melo também pelo verbo, não apenas pelo futebol, que é reconhecidamente bom. Com o time campeão brasileiro, obcecado por ganhar a Libertadores pela segunda vez e com a ‘quarentena’ de Cuca, chegou para ser o xerife de uma causa que precisava de pregação. E ele a abraçou com intensidade tamanha, no afã de manter a fama de mau, de ‘pitbull’, para honrar o apelido, que exagerou na dose. Não era a figura do galã da música de Erasmo, mas um jogador de futebol. O efeito foi ruim. Como se a figura fomentada pela oratória tivesse subido à cabeça. A sensação era de que o jogador se obrigava a, qualquer que fosse o jogo e o resultado, derramar nos microfones alguma frase de efeito, alimentando a máquina de manchetes e polêmicas do cotidiano. Algo inofensivo na aparência, mas que acabou sendo nocivo na prática.

Felipe Melo teve bons momentos em campo, e isso foi turvado pela canhoneira verbal. Suas declarações sempre repercutiram mais que o desempenho. Mostrou versatilidade e condições de ser protagonista em um clube que fez grandes investimentos farejando um ano vitorioso. Acabou se autoboicotando pela incontinência. Se a torcida se mostrou muitas vezes seduzida por esse perfil, ele certamente também criou incômodos e efeitos reversos. Uma passagem que prometia ser vitoriosa anuncia ter um fim melancólico, morrendo pelo verbo.



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