Ceni e Mancini, vítimas de cartolas inconvictos



ceni

FOTO: Rubens Chiri/saopaulofc.net

A cartolagem brasileira tem, em sua quase totalidade, uma plataforma principal de gestão: quando o time vai mal, ou uma crise se avizinha, é hora de demitir o técnico. Pouco importa o tempo de trabalho, o contexto em que ele se desenvolve, a conjuntura do clube, etc.. É uma fórmula já consagrada, politiqueira, vendida como panaceia para todos os problemas, apesar de ter a consistência de placebo. Mais políticos que gestores, os presidentes demitem técnicos especialmente para atender demandas de arquibancadas e, hoje em dia, também das redes sociais, esse incontinente escoadouro de juízos. Raramente vemos dirigentes que resistem à tentação de mexer no comando técnico, que enfrentam a impopularidade ocasional de um treinador. Digo ocasional porque a dinâmica do futebol e os ânimos dos apaixonados são bastante inconstantes e tê-los como parâmetro principal é tornar o ambiente vazio de ideias.

As demissões de Rogério Ceni, do São Paulo, e Vagner Mancini, da Chapecoense, ilustram a vigência dessa aridez de projeto, filosofia, em suma, de ideias. Ao contratar o maior ídolo do clube, noviço na atividade de treinador, o presidente do São Paulo estava fazendo uma aposta. Sem experiência prévia no cargo, Ceni ganhava a chance de realizar um sonho, como deixou claro em diversas entrevistas. Se treinadores precisam de um tempo mínimo de trabalho para implantarem conceitos e fazer ajustes, um debutante precisa de ainda mais. Não tem cabimento cacifar alguém como Ceni para demiti-lo sete meses depois. Desesperado com a posição da equipe no Campeonato Brasileiro, recorreu ao mantra da gestão brasileira. Pior: não deu sinais de que isso iria acontecer. Poucos dias antes da derrota para o Flamengo, deu entrevista ao Globoesporte.com dizendo: ‘Acreditamos no que está acontecendo’. Bastou novo resultado negativo para a crença virar irremediável descrença! O ídolo foi tratado de forma constrangedora.

O caso de Mancini espanta pela insensibilidade. Clube ‘adotado’ pelo país após a tragédia aérea, iniciando um processo de reconstrução, a Chapecoense tornou-se rapidamente competitiva. Se a questão são resultados, ela teve: foi campeã catarinense, fez uma boa fase de grupos da Libertadores – não passou às oitavas de final por uma lambança burocrática ainda não muito bem explicada – e teve resultados expressivos no começo do Brasileiro (venceu Cruzeiro no Mineirão e arrancou dois dos quatro pontos que o líder Corinthians perdeu até aqui, os únicos em Itaquera). Bastou um jejum de vitórias para que o todo fosse engolido pela parte. Acionou-se o botão ‘ejetor’ e pronto. A filosofia perdeu para o imediatismo.

Os dois casos mostram que os clubes são geridos mais com o fígado e menos com convicções.



MaisRecentes

Um Dérbi sob o signo da invencibilidade



Continue Lendo

Cristiano Ronaldo, uma máquina de obstinação



Continue Lendo

As lições do ‘aspirante’ Carille no senso comum



Continue Lendo