Galeano e o espírito do hooliganismo na Libertadores



penarol x palmeiras

Um dos livros mais apaixonados já escritos sobre futebol é de autoria de um escritor uruguaio. Em “O Futebol ao Sol e à Sombra”, Eduardo Galeano, um dos ícones do beletrismo na região, retrata com poesia e encantamento os diversos personagens que compõem o jogo mais popular do planeta. O goleiro, os craques, o torcedor fanático, as Copas do Mundo, o imponderável… E discorre também sobre as mazelas do esporte, como os dirigentes corruptos, as trapaças, as manipulações, a adulteração do amor do aficionado e a violência. Esta última é tema de uma das crônicas presentes no livro. Em “Os sacrifícios da festa pagã”, ele deplora o hooliganismo inglês, fardo que legou ao futebol britânico os seus piores dias. Recorda a barbárie ocorrida na final europeia de 85, entre Juventus e Liverpool, no estádio de Heysel, em Bruxelas, na Bélgica, com 39 torcedores mortos após conflitos. Ao vivo, pessoas acompanharam na TV pessoas sendo esmagadas contra um muro. A consequência foi a interdição de clubes ingleses dos torneios do continente por um tempo e uma série de medidas tomadas pelo governo local para dar cabo dessa selvageria. Até hoje, o episódio é lembrado como a tragédia que mudou os parâmetros de segurança do futebol na ilha. Em trecho da crônica, Galeano diz:

“(…) Um século antes, em 1890, advertia o jornal londrino The Times: “Nossos hooligans vão de mal a pior, e o pior é que se multiplicam. Eles são uma excrescência monstruosa de nossa civilização”. Em nossos dias, essa excrescência continua dedicando-se ao crime, usando o futebol como pretexto (…)”.

Evoco a memória de Galeano, autor de um antológico livro sobre a espoliação que os povos hispano-americanos sofreram do colonizador português (“As veias abertas da América Latina), para constatar que, ironicamente, ficamos na iminência de uma tragédia como a de Heysel na última quinta, no Uruguai, terra do autor. As cenas vistas no estádio Campeón del Siglo após Peñarol x Palmeiras, na última quarta, dentro e fora de campo, foram repulsivas. Quando torcedores forçavam a divisória que os separavam parecia que testemunharíamos uma carnificina. Sabe-se lá como não ocorreu nada. E tudo sob o manto arcaico do tal “espirito de Libertadores”, que glamoriza a violência no torneio.

A cena de jogadores se espancando em campo e torcedores se digladiando nas arquibancadas é um triste clássico dos torneios sul-americanos. Tomo por exemplo o jogo que deu ao Santos a taça da extinta Copa Conmebol, em 98. O jogo final ganhou o apelido de “A batalha de Rosario”, por conta do clima hostil que o time brasileiro enfrentou na cidade argentina (terra de Messi, um dos gênios da bola), com relatos até de tiros desferidos pela polícia. O batismo daquela conquista foge à magia do futebol! Um entre toneladas de capítulos desabonadores. Isso foi há quase 20 anos e parece nada mudou de lá para cá. Os signos negativos continuam presentes, como se os jogos desses torneios fossem pequenas batalhas em formato de memória bélica aos libertadores da América homenageados no nome da principal competição. A excrescência citada no texto de Galeano agora se exprime abaixo do Equador.



  • Felippe Rosell de Oliveira

    Não entendi o que você quis dizer com “espoliação que os povos hispano-americanos sofreram do colonizador português”. Portugueses roubando espanhóis ou seus descentes? Não seria espoliação dos povos pré
    -colombianos por espanhóis e portugueses?

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