Dérbi de Milão no almoço para chinês ver



san siro

Pode ser que se eternize o debate entre historiadores sobre a ida ou não do comerciante veneziano Marco Polo à China no século XIII, mas a chegada do grandiloquente PIB chinês às terras italianas é uma certeza capaz de afetar tradição e cultura. Neste sábado, os torcedores de Inter e Milan terão que acordar mais cedo que o habitual para ver o tradicional clássico da cidade de Milão, um dos mais famosos do mundo. Pela primeira vez, o jogo acontecerá no limiar da tarde, às 12h30. O sacrifício de rotina é uma rendição explícita ao dinheiro, sem disfarces. A razão pela qual o almoço dos milaneses terá de ser antecipado ou postergado – que tal uma ‘colazione’ reforçada? – encontra resposta a milhares de quilômetros da cidade, em um outro continente, a Ásia. Ou melhor, nas fábulas de dinheiro que o Extremo Oriente promete. O horário inédito permitirá que a partida seja exibida no início da noite chinesa, às 19h30, e não na madrugada. A opção por agradar espectadores longínquos em detrimento do torcedor local é uma estratégia de negócio, um mirante para um horizonte futuro. Segundo a agência italiana de notícias Ansa, a expectativa é de que este seja o dérbi mais visto do mundo, com 600 milhões potenciais espectadores – 350 milhões deles apenas na China.

Há um ingrediente adicional para o apelo desse, digamos, negócio da China à italiana. Nesta semana, consumou-se o fim da era Berlusconi com a venda do Milan para um grupo de investimentos liderado por chineses. Assim, os rivais se encontrarão estando ambos sob controle de “mandarinatos”. Em 2016, a Inter teve quase 70% de suas ações vendidas também a uma empresa de capital do país mais populoso do mundo. Não será o Derby della Madonnina, como é conhecido, mas o “Derby della Cina” (Dérbi da China), apelido adotado por veículos italianos.

Está longe de ser novidade o fato de um grande clube europeu virar propriedade estrangeira. Chelsea e Manchester City tornaram-se poderosos na Inglaterra, conseguindo ingressar na elite da bola, graças à dinheirama de um magnata russo e um xeque da família real dos Emirados Árabes. E mesmo quem já estava habituado ao topo, como o United e o Arsenal, também cedeu à lógica pura do capital, sem muitos pruridos de identidade. Eis uma forma de interpretar passos desse tipo. Mas é possível um outro olhar que contemple na necessidade a expectativa de um resgate de força. Ao farejar o dinheiro, Inter e Milan tentam recobrar as glórias não só em nível nacional, voltando a rivalizar com a atual pentacampeã Juventus, mas também na Europa. As equipes, que acumulam dez títulos continentais, não têm conseguido nem mesmo disputar a Liga dos Campeões nos últimos anos. A entrada de mais capital daria condições de reerguimento, do reencontro com a grandeza nos resultados, como em um ciclo virtuoso. Para usar a perfeita expressão de Caetano Veloso na clássica “Sampa”: “A força da grana que ergue e destrói coisas belas”.



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