Santos no divã: hora de encarar a dupla identidade!



FOTO: Ivan Storti / Santos FC

Nenhum grande clube do Brasil tem diante de si o desafio imposto ao Santos: assumir de uma vez sua “dupla identidade”. Trata-se de uma urgência financeira e que também responde a uma necessidade afetiva: acarinhar sua expressiva torcida paulistana. Há pouco mais de duas semanas, 3.195 pessoas pagaram ingresso para assistir ao jogo contra o Novorizontino, na Vila Belmiro. A arredação da partida, pela última rodada da primeira fase do Paulista, representou prejuízo de cerca de R$ 25 mil para os cofres santistas. Trocando em miúdos, o atual bicampeão estadual teve que pagar para jogar – no pacote estão gastos operacionais, aluguéis, seguros, taxas, impostos, além da mordida de 5% que a Federação Paulista dá. Esse pequeno estrago não é novidade, já ocorrera outras vezes em tempos recentes. No ano passado, o saldo negativo foi dessa monta em jogo contra o Internacional, pela terceira rodada do Campeonato Brasileiro. Mesmo na principal competição do país, e diante de um adversário de grande porte, aconteceu de o Santos ter engolido a seco uma renda negativa. A média de público do time no seu tradicional alçapão este ano é de 8,2 mil, o que o coloca na distante 12ª colocação geral no país, atrás do Remo, por exemplo.

Não é de agora que dados como esses empurram o Santos para o divã. O clube precisa aprender a lidar com a peculiaridade de ser o único grande fora de uma capital, que tem suas raízes no município homônimo, mas o extrapola. Segundo a pesquisa LANCE!/Ibope de 2014, 6% da população da região metropolitana de São Paulo torce pelo clube alvinegro, o que representa cerca de 1,3 milhão de pessoas (tendo por base os últimos números do IBGE). É o triplo da quantidade de habitantes de Santos. Aproximar-se dessa legião de torcedores é um imperativo. O clube ainda não conseguiu assumir, às claras, essa duplicidade. Se clássicos e jogos decisivos costumam lotar a Vila e, com ingressos majorados, dar uma renda substantiva, no cômputo geral os cofres sofrem. Ser assíduo na parte de cima da serra, com um calendário de mandos mais divididos entre litoral e capital, certamente fará aumentar a média de arredação e contemplará um leque maior de torcedores.

A necessidade financeira fará o Santos mandar o jogo decisivo com a Ponte, na próxima segunda, no Pacaembu. Assim será também contra o Santa Fe (COL), na Libertadores. Porém, sempre que um duelo importante é retirado da Vila ouvimos que jogadores e técnico não gostaram. Há uma dependência psicológica do charmoso estádio que não resiste aos fatos. É um bloqueio mental. Daí a necessidade de o Santos encarar o divã para ver-se livre desse apego fantasioso. Nesta quinta (6), completaram-se três anos da última derrota do time no Pacaembu. Foi na primeira final do Paulistão de 2014, para o Ituano. De lá para cá, foram 17 partidas no estádio, algumas delas como visitante, e 17 vitórias. No caminho, houve três clássicos, dois contra o São Paulo e um contra o Palmeiras. Justamente estes dois rivais saíram vitoriosos da Vila este ano. Será que o Santos é tão mais forte quando joga na Baixada em relação ao estádio da capital? Não ignoremos que os ventos da lenda costumam ser bastante fortes no futebol. O título mais importante do clube na década teve o Pacaembu como protagonista. Na primeira fase da Libertadores de 2011, foi um tropeço na Vila que quase colocou a classificação a perder (empate com o Cerro Porteño). Nas quartas, semifinais e finais, a equipe jogou no Pacaembu. Em compensação, a eliminação para o Corinthians na semifinal do ano seguinte, que colaborou diretamente para o primeiro título continental do arquirrival, aconteceu pela derrota por 1 a 0 na Vila. Na volta, houve empate no Pacaembu. Retrocedendo bem mais no tempo, a épica virada sobre o Fluminense, na semifinal do Brasileiro de 1995, aconteceu no Paulo Machado de Carvalho.

Urge que o Santos, da Vila dos Meninos dribladores, dê uma finta nesse bloqueio identitário para assumir sua condição singular.



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