Gol, o grande momento da festa proibida



Foto: Celio Messias/Lancepress!

O gol é como o orgasmo. A metáfora não é nem um pouco original, é recorrente. Tente se projetar, o imaginoso leitor, em um estádio lotado fazendo um gol importante. Sonho de qualquer menino, homem, ser humano amante da bola. Êxtase equivalente ao sexual. Nem precisa dar asas à imaginação. Basta lembrar dos tempos de menino, na rua, na praia, em um terreno baldio qualquer… Quantas vezes não fez gol e coreografou, surtou, saiu berrando, abraçou quem estava na sua frente, sentiu-se, de repente, a pessoa mais feliz do mundo. A figuração do prazer do coito no estufar da rede é evidente. Os esgares e urros são de sua natureza feliz. Corre pro abraço, receita o velho adágio!

No futebol profissional, mais especificamente no futebol profissional brasileiro, comemorar gol tem sido um exercício de controle do gozo. Tem que seguir a cartilha do orgasmo comportado baixado pelos cartolas-barões. Daqui a pouco afixarão nas portas dos estádios, como Luteros da reforma dos modos futebolísticos, as teses da contenção da felicidade. Reprima a euforia, rapaz! Se subir no alambrado, extravasar com galeria, vai ser censurado, punido, quase açoitado em praça pública. Para os franceses, o orgasmo é seguido da “petite-mort”, a pequena morte causada pelo refluxo do prazer máximo. No gol, temos por aqui, com perdão dos francófilos, a “petite-censure”, a pequena censura. É o pito naquele que ousa festejar além dos limites, ousar confraternizar-se com seus torcedores, empoleirar-se para ficar olho no olho com a galera. Pecado capital! O jogador marca, mas o protagonismo é o do juiz-bedel, com sua palmatória de cartolina.

Róger Guedes fez gol nos minutos finais de um mata-mata, correu, alucinado, dependurou-se no alambrado e teve o barato cortado pelo árbitro. Dirão os legalistas que cumpriu a regra. Mas e o bom senso mora onde? Talvez os árbitros não façam uso da sensatez justamente porque o rígido sistema quer ser mais realista que o rei. Vivem com medo das geladeiras. Guedes quase teve que pedir desculpas para ousar marcar um gol. Depois do jogo, Felipe Melo e Michel Bastos clamaram por uma reavaliação dessa “perseguição” à alegria. Pedem alforria para a festa. Uma Lei Áurea para a comemoração. Gol é o grande momento do futebol. Virou até nome de programa! O cerco à alegria me faz lembrar de “Poética”, versos de Manuel Bandeira no início do movimento modernista. Dizia o poeta estar “farto do lirismo comedido, do lirismo bem comportado, do lirismo funcionário público com livro de ponto, expediente, protocolo e manifestações de apreço ao senhor diretor”. Pois podíamos lançar a “Poética do gol”: “Estou farto do gol bem comportado, do gol que precisa se ajoelhar e pedir perdão por existir”



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