Seleção de Tite: É o assombro! É o assombro!



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FOTO: Mauro Horita / MoWA Press

A consistência da Seleção Brasileira sob o comando de Tite causa inegável assombro. O fato de o técnico ter sido escolhido quase que por aclamação de público e crítica, ainda que com lastimável atraso de dois anos, não mitiga o impacto do que temos visto. As condições em que assumiu a equipe, com desempenhos de medianos para ruins, posição delicada nas Eliminatórias e as feridas do 7 a 1 sangrando muito, só aumentam a perplexidade. É compreensível que os cautos nos alertem sobre os perigos da canonização de um treinador, do oba-oba em torno de um trabalho, da euforia excessiva. Os freios racionalistas servem para nos fazer pensar e enxergar os desafios, os senões, poréns, contudos e todavias da vida. O próprio técnico, em seus gestos professorais e pausas típicas, sempre reitera o estágio do trabalho e o árduo caminho que tem pela frente. Porém, como não se empolgar com uma sequência de oito vitórias seguidas em um torneio de ótimo nível, que foi da agonia à classificação antecipada e, mais importante, com desempenho convincente? Onde está essa dose? Ainda mais tomadas as circunstâncias de autoestima baixa da Seleção e do torcedor, castigada pelas humilhações recentes. Tite já resgatou a potência da mais mítica das seleções.

Em menos de um ano, o Brasil saiu do temor de uma inédita ausência em Mundial, com Dunga, para candidato a protagonista na Rússia. Tudo muito rápido e suficiente para recolocar a Seleção no prateleira das mais fortes. As características e o contexto parecem bem diferentes do percebido em 2013, após a conquista da Copa das Confederações. O brilho dos 3 a 0 sobre os espanhóis provocou uma catarse coletiva na ocasião. Como na canção “Vai Passar”, de Chico Buarque, todos os paralelepípedos, das velhas e novas cidades, se arrepiaram. Ou, como na velha metáfora de cunho nacionalista, o gigante adormecido havia acordado. Houve uma espécie de efeito ilusório, uma catapulta emocional. O hino à capela, o ritmo alucinante dos primeiros minutos, o fato de ter sido contra a então campeã do mundo e bicampeã europeia, o retorno de Felipão, comandante do título de 2002 e técnico sempre relacionado à abstrata ideia da “estrela” … Foi uma junção de componentes que instalaram uma aura mística. Deve ter sido essa atmosfera que induziu Parreira a uma das frases mais infelizes de sua vitoriosa trajetória: “Estamos com uma mão na taça”. A declaração, dada no dia em que o Brasil iniciou sua preparação para a Copa de 2014, virou um mico histórico depois do massacre alemão na semifinal. A sensação predominante era a de predestinação. O roteiro agora é de outra natureza. O que o time dirigido por Tite vende é a ideia de um trabalho sólido. Um time competitivo, senhor de si, capaz de encarar qualquer adversário. E essa transformação não só aconteceu em pouco tempo como na limitante condição inerente a seleções, sem o dia o dia de um clube.

A Copa do Mundo é torneio de tiro curto. Se o futebol já é refém por natureza dos detalhes, eleve essa condição à enésima potência em uma competição de jogos eliminatórias que dura um mês e no fim da temporada europeia, com boa parte dos jogadores desgastados. Os Sarriás, Maracanazos e as Laranjas Mecânicas só reforçam o imponderável que sempre acompanhou a disputa. Além disso, há outras seleções que chegarão bem cotadas. Alemanha, França e Espanha estão fortes, com meios campistas excelentes e trabalhos mais longevos. A Argentina tem Messi. Assim, reverenciar o trabalho de Tite, reconhecer o assombro que ele provoca, não implica em cravar que o Brasil será hexacampeão em 2018.



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