Documentário mostra diálogo entre sociedade e futebol na França



(Foto: AFP/ED JONES)

Dias atrás, assisti a um interessante documentário sobre o papel que a seleção francesa tem exercido na discussão sobre a formação da sociedade local, cidadania e temas correlatos. Percorrendo a linha do tempo que vai de 96 a 2016, “Les bleus, une autre histoire de France” (“Os azuis, uma outra história da França”, em tradução livre) mostra como os sucessos e fracassos do selecionado francês nessas duas décadas se infiltraram no debate político nacional. O título mundial de 98, conquistado com uma equipe repleta de descendentes de imigrantes de ex-colônias francesas, foi a faísca de tudo. Aquele time teve em Zidane, meia de origem argelina, o seu principal protagonista. Com depoimentos de ex-jogadores (destaco as falas do inteligente e articulado Lilian Thuram, autor dos dois gols contra a Croácia na semifinal), pensadores, acadêmicos, políticos e até figuras do mundo artística do país, como Osmar Sy (vencedor do César de melhor ator em “Intocáveis”), o filme é mais uma peça a reforçar como o futebol não é tão-somente um jogo. Uma seleção multiétnica, que em duas décadas foi campeã do mundo e da Europa uma vez e chegou a uma outra final de mundial, se fez porta-voz das virtudes da integração entre os povos, mas também se viu como canal para a extrema direita tamborilar sua ideologia xenófoba. Há fartura de obras que tratam desses tópicos (indico o filme “Entre os muros da escola”), mas o documentário se firma no futebol e dá a dimensão de sua participação na discussão.

O futebol, como esporte de massa, popular em todos os cantos do mundo, não passa ao largo da sociedade em qualquer lugar. Não à toa temos registros históricos de como governos autoritários se lambuzaram em triunfos de seleções. As ditaduras de Brasil e Argentina, por exemplo, fizeram uso explícito em 1970 e 1978, respectivamente, dos títulos mundiais dos dois países. Mas não é só isso. São múltiplos os ecos que questões importantes acabam tendo no jogo. Quantas vezes não vimos em partidas do Barcelona a afirmação do sentimento catalão? É um exemplo entre vários. No livro “Como o futebol explica o mundo”, de Franflin Foer, há vários tipos de manifestações de afirmação nacional e busca de identidade tendo como palco o futebol. Com a globalização, a circulação massiva de pessoas, o tema se intensificou. O futebol não consegue se descolar do contemporâneo por sua potência e influência. É bom porque trás a discussão, embora possa servir a intenções pouco nobres e de cunho extremista. O documentário sobre a seleção da França mostra um dos países mais pujantes do mundo, que exerceu no início do século XX grande influência cultural no planeta, tendo êxito no futebol graças à participação decisiva de esportistas filhos e netos de estrangeiros. É um retrato da humanidade, diz respeito a todos nós.



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