A era em que gol não tem sido um detalhe



FOTO: AFP

O confronto entre Bayern e Arsenal, nas oitavas de final da Liga dos Campeões, teve placar agregado de 10 a 2 para os alemães. O Real Madrid acumulou 6 a 2 para eliminar o Napoli. O Barcelona conseguiu ‘remontada’ inédita na história da competição ao fazer 6 a 1 no PSG depois de sofrer 4 a 0 em Paris. O Borussia Dortmund classificou-se fazendo 4 a 0 no Benfica. O City venceu o Monaco por 5 a 3 na Inglaterra e a semana que vem, diante de tudo que temos visto, ninguém sabe o que será, quando, na França, voltarão a se encontrar. As quatro partidas desta semana, que definiram os primeiros quadrifinalistas, tiveram 21 gols, média astronômica de 5,25 por partida. Essa numeralha toda não quer entediar o leitor. Ela serve a uma constatação que, talvez, tenha um pouco de euforia. Tenho a impressão de que vivemos uma era de valorização do futebol ofensivo, marginalizando a ideia de que o gol é um detalhe. Essa primeira etapa de mata-matas do mais prestigioso torneio de clubes da Europa simula um regresso aos anos 60 ou a períodos de futebol mais vistoso.

Não pretendo excomungar os pragmáticos, os que se aferram ao jogo menos fluido, pautado na solidez defensiva como mantra. Ele pode ter sua beleza, com ocupação de espaço e entrega, muita disciplina para impedir o adversário de penetrar na área ou ameaçar de alguma forma. Como acontece, não é de hoje, com o Atlético de Madrid dirigido por Simeone. Apenas pretendo lançar um pouco de luz sobre o que temos visto, que é a predominância de equipes que perseguem o gol. Bayern de Munique, Barcelona e Real Madrid têm sido hegemônicos nos últimos anos com foco em artilharia pesada.

Essa reflexão me vem ainda sob o impacto da recente leitura de “A pirâmide invertida”. Escrito pelo jornalista inglês Jonathan Wilson, o livro é uma espécie de bíblia da tática (foi lançado em português pela editora Grande Área com tradução de André Kfouri, colunista deste LANCE!). Ao descrever os caminhos que a tática percorreu desde os primórdio do futebol, ainda no século XIX, até os dias presentes, a obra nos mostra que o modo de conceber o jogo, a distribuição dos atletas em campo, sempre esteve a serviço da ideologia de treinadores, em suas crenças, muitas delas espelhando o olhar que tinham para a sociedade e os rumos que ela deveria tomar. Os exemplos são fartos e estão esmiuçados nas páginas, como a divisão entre menotistas e bilardistas na Argentina, o nascimento do futebol total na Holanda (com as teses de reprodução ou não da cultura local nele) ou a crença plena no coletivo do italiano Arrigo Sacchi no Milan no fim dos anos 80. E também estão lá registrados os movimentos da “comunidade do futebol” para alterar regras com o fim de aumentar o número de gols, como as mudanças na lei do impedimento em 1925 e após a Copa de 1990.

Os movimentos históricos pró ataque ou defesa viveram ziguezagues. Por ora, parece seduzir mais o futebol para a frente. Temos notado os efeitos no Brasil. O maior exemplo deste começo de temporada vem de Rogério Ceni em sua primeira experiência como técnico. Ele expõe claramente o desejo de ter um time agressivo, que busque incessantemente o gol, e na prática temos assistido a isso nas partidas do São Paulo. Também vibramos com a final da Taça Guanabara pelas reviravoltas e o robusto placar de 3 a 3. Queremos ver gol!



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