O Dérbi da ética de todos nós



corinthians x palmeiras

FOTO: Jales Valquer / Fotoarena

A despeito daqueles que, com ar de acadêmica, e falsa, superioridade, consideram o futebol um fato menor da sociedade, uma partida pode despertar os mais profundos debates sobre a natureza humana. Não é raro que a ética seja colocada em pauta. O Dérbi da última quarta, na Arena Corinthians, foi mais um exemplo dessa Ágora futebolística. Nas redes sociais, especialmente, pudemos ler múltiplos Aristóteles, Platões e Sócrates (o das perguntas ou o da douta bola) analisando condutas e contradições.

O gatilho principal foi a injusta expulsão do volante Gabriel. Injustiça não se resolve, como escreveu Drummond, e é por isso que alimenta a maior das indignações. Ao ver o árbitro mostrar cartão vermelho para um jogador que não fez o que o árbitro acha que fez somos todos testemunhas instantâneas do absurdo e contra ele nos revoltamos. Nas redes sociais, logo surgiram palavras indignadas contras os jogadores do Palmeiras. Por que nenhum deles foi ao árbitro e alertou do erro? Seria um gesto de desportividade! Keno, que sofreu a falta e, pela imagem, parece mesmo não ter visto quem foi o autor, logo passou a ser indigitado como o maior dos antidesportistas. O calor do jogo, as frações de segundos de uma decisão, o clima no estádio, nada disso é levado em consideração no juízo imediato, e impiedoso. Um juízo que clama pela civilidade em um campo de futebol quando fora dele as coisas são piores, com filas furadas, regras burladas e jeitinho premiado.

O futebol, de alguma forma, reflete a sociedade e seus códigos. Para apimentar ainda mais, há o clubismo evidente em muitos casos. Contra meu time a decência, contra os outros a simulação que me beneficia (claro que não dito assim, com essas palavras, mas pelo silêncio ou grita, a depender do lado em que se está). Nesse comportamento a mais clássica das indagações: os fins justificam os meios?

O tribunal filosófico decretou a vilania absoluta do árbitro também. Mesmo depois de ele pronunciar-se à imprensa pedindo desculpas pelo erro e quase implorando para não ter a carreira arruinada, com os olhos marejados. Crueldade! O erro e a insistência no erro no gramado e, depois, o reconhecimento do erro mais tarde. Em todos esses passos, julgamentos e reflexões não faltaram.
Por fim, nos instantes finais do jogo, o zagueiro Vitor Hugo dá uma cotovelada em Pablo, do Corinthians. Mais uma vez as câmeras flagram e os dedos ardem. Um jogador tido por boa gente, sujeito carismático, como pode fazer isso? Por que ele não se acusou? Definitivamente, não foi apenas um jogo, como nunca é!



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