Guardiola diante do desafio que queria



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(FOTO: Oli Scarff / AFP)

Guardiola já está na história do futebol como um dos maiores técnicos de todos os tempos. Situa-se no seleto grupo dos que não apenas venceram, mas contribuíram para a excelência do jogo com alguma singularidade. Os gênios da profissão, enfim. No comando do Barcelona, encantou o mundo com jogo de controle da posse de bola e devastação dos adversários por meio dessa dominação. Colecionou títulos, contando com jogadores excepcionais, prontos para executar a sua filosofia, especialmente o trio Xavi, Iniesta e Messi. Três jogadores que sintetizam uma era hegemônica, que, com os dois primeiros, estendeu seus tentáculos para a seleção espanhola campeã mundial e bicampeã europeia entre os anos de 2008 e 2012.

Quem leu “Herr Pep” (na edição brasileira “Guardiola Confidencial”), do jornalista e ex-atleta Marti Perarnau, pôde ter uma boa noção de como pensa e trabalha o treinador. O livro, que acompanha a primeira temporada de Guardiola no Bayern de Munique, mostra um homem obcecado pelo jogo, imerso de corpo e alma em um processo de transformação de um time para que ele responda, paulatinamente, à sua visão de futebol e obtenha os melhores resultados possíveis dessa forma.

Ao topar assumir o Manchester City, o catalão abraçou, provavelmente, o maior desafio de sua carreira. O Campeonato Inglês tem um nível de disputa acima do Espanhol, do Alemão e de qualquer outro dos suprassumos entre os torneios nacionais. A dificuldade não se restringe à qualidade de boa parte das equipes, embora, obviamente, isso seja relevante. Ela está na dinâmica particular do jogo praticado. A intensidade parece outra, os espaços se sugerem mais diminutos, até a configuração interna dos estádios, em geral com a torcida no mesmo patamar e próxima ao campo, transmitem outra atmosfera. É como se o futebol tivesse adquirido, em terras britânicas, um gênero à parte.

Neste domingo, o Manchester City foi goleado pelo Everton por 4 a 0, fora de casa, e, nas redes sociais, caixa de ressonância plural e imediata de nossa época, apareceram sátiras e críticas a Guardiola. O técnico tem adoradores e detratores, como é praxe acontecer com os excepcionais em todas as áreas, mais expressivamente nas “pops”. Basta ver como Cristiano Ronaldo e Messi vivem permanentemente nesse fogo cruzado. Pep já tinha experimentado isso na pele no início de dezembro, quando o City foi derrotado, também de forma inapelável, pelo Leicester. Na ocasião, o treinador pediu paciência e tempo. Lembrou que Alex Fergusson, maior vencedor da Premier League com 13 títulos, não venceu 11 das edições que disputou. Sua ideia foi mostrar que o grau de exigência da competição não poupa ninguém e que ele, Pep, não é mágico.

Guardiola, como está registrado no livro de Perarnau, diz odiar o “tiki-taka”. É o termo que os espanhóis usam para referir-se ao jogo de bola para lá e cá à exaustão. O técnico vê a expressão como pejorativa, pois a troca de passe para ele é um mecanismo de desvirtuamento da marcação para chegar ao gol, não a simples possessão da bola. Diante do Everton, como em quase todas as partidas do Campeonato Inglês, o City teve mais a bola, porém foi presa de contra-ataques. De Bruyne e David Silva são ótimos assistentes, mas o time tem poder de fogo oscilante. Foi ineficiente no ataque e sofreu na defesa. Quando acerta o pé, a configuração é outra, como contra o West Ham, na Copa da Inglaterra.
Enquanto os críticos se lambuzam com os reveses de Guardiola, ele deve pensar: “era esse o desafio que eu queria mesmo!”



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