A invasão corintiana e a evasão da festa



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FOTO: Arquivo LANCE!

Vez por outra, o passado nos fustiga à reflexão, No sábado, assisti ao documentário “1976 – O ano da invasão corinthiana”, exibido pela ESPN. Fiquei hipnotizado (verbo mais preciso não haveria) com as imagens de arquivo da festa que a torcida do Corinthians promoveu no Maracanã naquele longínquo 5 de dezembro. É impossível traduzir em palavras a dimensão do que meus olhos testemunharam no conjunto de poucos, e fragmentados, minutos. Meu coração, que não é corintiano, sentiu a experiência como extraordinária. Sempre ouvi falar da numerosa presença de alvinegros no jogo contra o Fluminense, mas nunca a tinha contemplado com vagar e êxtase. O genial Nelson Rodrigues, tricolor e pai de um dos depoentes mais ativos no documentário, estava errado. O videotape não é burro! Ao menos não na capacidade de nos persuadir da grandeza de um evento passado, algo que antes me povoava apenas como uma ideia contada por livros, jornais e reproduzida pela tradição oral.

Mas em meio à admiração pelo que aqueles milhares de torcedores protagonizaram 40 anos atrás, senti a amargura de um choque temporal. Instalou-se um conflito entre a prova coletiva de amor no passado e uma espécie de repressão a ele que vigora no presente, tombado que está diante da violência de alguns e a inépcia do estado. Minha sensação é de que de invasão corintiana para cá o futebol brasileiro sofreu uma evasão da festa. As tomadas do setor do Maracanã ocupado pelos corintianos em 76 mostram um festival de bandeiras tremulando e instrumentos percutindo a festa. Era um modelo que se replicava em São Paulo, mas morreu. Não vemos imagens assim há muitos anos no Morumbi e no Pacaembu. Nunca vimos nos novos estádios de Palmeiras e Corinthians. Os elementos que davam cores e vibração aos jogos foi proibido sob pretexto de combater a brutalidade. A motivação foi uma briga entre torcedores de Palmeiras e São Paulo em 95, no Pacaembu, em torneio de juniores, quando mastros foram usados como armas de guerra.

A colisão que senti entre passado e presente foi além. Lembrei do confronto entre corintianos e policiais no mesmo Maracanã, pela mesma competição, em outubro passado. Em 76, festa histórica. Em 2016, uma barbárie que, infelizmente, tem se repetindo.

No início deste ano, o governo de São Paulo inseriu mais uma tarja censória na festa. Como resposta a novo episódio de violência, bem longe do estádio, registre-se, determinado que os clássicos sejam disputados com torcida única. Nesta quarta, anunciou a extensão da medida para 2017. O “nadismo” prevalece: nada de bandeiras, nada de instrumentos, nada de visitantes… Chegará o dia em que o veto será aos cânticos. Talvez passem a exigir que os torcedores usem fraque e aplaudam cada jogada como claque apenas. E quem quiser ver festa, que aprecie campeonatos estrangeiros ou recorra a imagens de arquivos, como essas da invasão corintiana de 76. Viveremos como o José, de Drummond, “a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a festa esfriou…”



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