A aula magna de solidariedade dos colombianos



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A cerimônia póstuma realizada pelo Atlético Nacional no horário em que ocorreria a partida contra a Chapecoense, na última quarta, foi uma aula magna de solidariedade para o mundo. Um espetáculo de comovente humanismo. Parecíamos testemunhar a abertura de um grande evento, com discursos de autoridades, recitação do nome das vítimas da tragédia, execução dos hinos nacionais de Brasil e Colômbia, pombas sendo soltas e a exaltação da fraternidade. Condolência em massa! Em um dos momentos de maior simbolismo, a torcida cantou “vamos, vamos Chape! Vamos, vamos Chape! Vamos, vamos Chape!”. Foi o instante em que a ordem natural foi subvertida em nome da união entre os povos. O apoio ao time local em uma disputa esportiva deu lugar ao abraço coletivo naquele que originalmente seria seu rival. O Atlético passou a enaltecer a Chapecoense como movimento de irmandade no sofrimento. Em meio à dor e ao desalento de uma tragédia de difícil assimilação, uma ação para a eternidade.

Desde a madrugada de terça, quando o acidente aconteceu, temos visto centenas de gestos solidários por parte de clubes e jogadores ao redor do mundo. Na quarta, foi como se a Colômbia tivesse agrupado todas essas manifestações no palco do jogo que não existiu. A tirania do acaso, ou o bafejo de um triste destino, machucou e sensibilizou em escala global. E o Atlético, que disputará neste mês o Mundial de Clubes por ser o atual campeão da Libertadores, conquistou o mundo com essa grande ação solidária.

Não há lado bom em tragédias, evidentemente. Se tivéssemos o condão de reverter tempo e acontecimento, traríamos de volta as pessoas que morreram e eliminaríamos as dores de famílias e torcedores. Mas como não temos, buscamos aplacar a dor com compaixão coletiva. Nesses momentos, somos tocados por um sentimento de pertencimento, nos identificamos com o sofrimento alheio e, de alguma forma, experimentamos sua dor e oferecemos nossos ombros. Quando começaram a ser divulgadas as notícias da queda do avião, me veio à mente o incêndio na boate Kiss. Assim como Chapecó, a cidade de Santa Maria, no Rio Grande de Sul, onde aconteceu o fato em 2013, é pequena, com pouco menos de 250 mil habitantes.

A compaixão coletiva externou-se em redes sociais e nas conversas na rua. Nos dois casos, logo nos identificamos, pensamos que poderíamos sermos nós, parentes ou amigos nossos as vítimas. O luto se espraia, toma grande dimensão. Ao homenagear em seu estádio os mortos do voo da LaMia, o Atlético Nacional se fez porta-voz universal. O pensamento do poeta romano Terêncio, que viveu antes de Cristo, se fez presente: “Sou humano; nada do que é humano me é estranho”.



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