Empate com o Galo pode ter sido a final adotiva do Palmeiras



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FOTO: Thomas Santos

O campeonato por pontos corridos não tem uma final de fato, mas podemos tomar a licença de dizer que possui uma final adotiva. Eu me refiro àquele jogo que simboliza a conquista e acaba sendo adotado pela memória afetiva dos vencedores (e pela memória amarga dos perdedores). É a partida que representa a essência da trajetória gloriosa, que ficará na lembrança como se final de fato fosse. Se antes recordávamos em detalhes da trajetória dos campeões em mata-matas, motivação da nostalgia de alguns por essa fórmula, nos pontos corridos forjam-se jogos que se eternizam como se status de final tivessem.

Como não se trata de final de fato, há certa aleatoriedade de momento. Ele pode acontecer em ocasião precoce ou adiantada da campanha. Alguém tem dúvidas de que Corinthians 1 x 1 Inter, no Pacaembu, jogo do polêmico pênalti não marcado de Fábio Costa em Tinga, foi a final adotiva de 2005? O confronto direto dos dois times que brigavam pelo troféu e permitiu aos paulistas manter a vantagem na classificação às portas do fim. Será sempre o jogo-síntese. A vitória do Flamengo por 2 a 0 sobre o Palmeiras, no antigo Palestra Itália, vem logo à mente quando se pensa na arrancada rubro-negra para o título de 2009. O flamenguista poderá citar outras partidas, mesmo a vitória sobre o Grêmio na última rodada, a da taça, mas para muitos a lembrança imediata será daquela tarde de domingo em São Paulo com gol olímpico de Petkovic. Os santistas comemoraram o título de 2004 com vitória sobre o Vasco, na última rodada, mas é provável que a final adotiva seja outra: a goleada por 3 a 0 sobre o São Caetano, no fim de semana anterior. No mesmo dia, o então líder Atlético-PR perdeu para o mesmo Vasco, em São Januário, e os santistas viram o mar se abrir. Não fosse essa combinação, e a taça teria ido para Curitiba.

Algumas vezes, a final adotiva pode acontecer ainda no primeiro turno, por que não? É raro, mas há exemplo disso. Em 2007, o São Paulo derrotou o Botafogo, no Maracanã, por 2 a 0. Era a 18ª rodada, o Tricolor havia tomado a ponta dos cariocas na partida anterior e o triunfo no confronto direto abriu uma vantagem que depois só faria se alongar até a conquista. Naquele instante, o Botafogo, dirigido por Cuca, encantava pelo jogo versátil e envolvente. A eficiência do São Paulo de Muricy desviou de forma definitiva o curso do rio.

Se o Palmeiras confirmar o título brasileiro de 2016, algo que pode acontecer já neste domingo, provavelmente o jogo de quinta passada contra o Atlético-MG será dos mais lembrados. Estará na relação das finais adotivas. Curiosamente, foi contra o time mineiro, no mesmo Independência, que o Corinthians fez o jogo-símbolo de sua campanha no ano passado, o 3 a 0 que enterrou as esperanças mineiras.

O empate do Palmeiras teve o mais alto valor. O confronto já vinha sendo citado rodadas atrás como o principal desafio da equipe. A qualidade do elenco do Galo, a situação dele na tabela, o mando do jogo e a possibilidade de o Santos ficar a três pontos – o que daria ao Alvinegro a possibilidade de tomar a ponta no fim de semana – construíram o enredo de temor. O choro de Gabriel Jesus após o gol que abriu o placar dá dimensão da importância do confronto. Até ali, o Atlético jogava em intensidade alucinante, lembrando até o velho Galo Doido de Cuca, e dava pinta de que seria difícil o líder não sair derrotado. Não à toa, Cuca comemorou muito o ponto. Ele abriu não só a possibilidade de o título vir já neste domingo, mas anulou a hipótese de o Palmeiras, em uma tarde em que tudo desse errado, ver-se, repentinamente, na segunda colocação. Esse risco poderia ser um fator de desestabilização emocional para um time que tem dado sinais evidentes de ansiedade – especialmente nos jogos em casa.

O Palmeiras tem uma vantagem muito boa e, independentemente do que fizerem Santos e Flamengo, precisa apenas vencer Botafogo e Chapecoense como mandante para levar o título brasileiro após 22 anos. E esse ótimo cenário surgiu após o empate com o Atlético-MG, que pode transformar-se na final adotiva de 2016.



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