Quando o Fla-Flu da política invade o futebol



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FOTO: Celso Pupo / Fotoarena

De forma enviesada, a política tomou emprestado do futebol o romântico apelido Fla-Flu. Ele passou a designar o obscurantismo no debate, sinalizador das trevas emburrecedoras dos nossos tempos. O Fla-Flu político não tem nada de clássico, é a etiqueta do racha nas famílias e dos melindres em grupos de amigos. É o que embala a desrazão. Uma tristeza. Cria seitas em redes sociais e perde o seu sentido original, aquele exaltado por Nelson Rodrigues em suas crônicas de deliciosos exageros e acomodado no hino do Flamengo pelo compositor Lamartine Babo, o “ai, Jesus”.

Presenciamos agora um regresso do filho pródigo todo esfarrapado. O Fla-Flu volta ao futebol contaminado pelas impurezas às quais foi submetido nas redes sociais. Se não, vejamos. Depois de um período de calmaria, tivemos uma pequena volta da judicialização do Campeonato Brasileiro. A última, se não me falha a memória, havia sido a que rebaixou a Portuguesa e manteve o Fluminense na Primeira Divisão. Aqui é um resgate histórico, não um julgamento de mérito. O asterisco, sinal gráfico que mimetiza uma estrela, saiu de sua hibernação, voltou à tabela, mas sua alegria durou pouco. E se a causa primária foi uma polêmica em um clássico Fla-Flu de fato, a reação a ele foi de deixar envergonhados os adeptos do Fla-Flu da política.

O juiz Sandro Meira Ricci anulou, validou e depois anulou novamente o gol que deixaria empatado o Fla-Flu do campo, em Volta Redonda. A discussão sobre se houve ou não interferência externa na decisão da arbitragem ganhou os vícios do Fla-Flu político: não há nuances, cada lado defende o seu e pronto. Rival do Flamengo na disputa do título, o presidente do Palmeiras, Paulo Nobre, deu coletiva esbravejando: ‘Não vão ganhar na mão grande’. O do Flamengo, Bandeira de Mello, respondeu no mesmo tom. O Fluminense entrou com ação pedindo a impugnação do jogo. O resultado chegou a ser suspenso pelo STJD, que nesta sexta considerou argumentos do procurador de que a prova da leitura labial é “precária” e arquivou o processo.

Nas redes sociais, habitat natural do Fla-Flu político, o Fla-Flu futebolístico foi intenso. Torcedores do Flamengo esgrimindo o argumento de que o importante é que a decisão do juiz foi correta, pois Henrique estava impedido. Os do Fluminense e do Palmeiras abraçaram o legalismo, como amantes da lei desde sempre, querendo fazer crer que defenderiam o mesmo se a situação fosse inversa. Ajuda externa não pode, lei é lei, não importa a verdade do lance, o resultado do jogo deveria ser impugnado. Um debate complexo, de forte carga filosófica, foi reduzido a paixonites e conveniências. O embate entre legalismo e justiça, profundo, foi reduzido ao “quem está certo sou eu porque meu time é o prejudicado”. E assim o debate agoniza!



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