No esporte, a frustração está sempre à espreita



jaqueline

FOTO: Kirill Kudryavtsev/AFP

As eliminações das Seleções femininas de futebol e vôlei nos Jogos Olímpicos foram dolorosas. As razões são bem diferentes porque os contextos o são. A equipe de vôlei, comandada pelo admirável José Roberto Guimarães – que aula de sensatez na entrevista após a derrota para a China (!!!) -, vem de dois ouros olímpicos, está consolidada no panteão da modalidade e tem o crédito que os triunfos passados, mas recentes, naturalmente concedem. Por outro lado, a turma de Marta e cia. deixou escapar pela enésima vez a chance de subir ao lugar mais alto do pódio com um enredo que faz os mais místicos praguejarem contra os deuses da bola e os mais rigorosos ironizarem pelos veios do estigma. Mas o que une o sentimento fraternal pelas duas quedas é o reconhecimento do desejo de vitória estampado no rosto das jogadoras. O choro de Andressinha, que perdeu pênalti na semifinal contra a Suécia, foi tão cortante quando o da experiente Jaqueline, banco da seleção de vôlei, na saída de quadra. Foram mensagens vivas da frustração de quem sonhou.

A seleção de vôlei foi arrasadora na primeira fase. Não perdeu um mísero set. E foi eliminada pela quarta colocada do outro grupo. A equipe dirigida por Vadão tinha goleado por 5 a 1 no segundo jogo a algoz da semifinal. Ganharam estofo na trajetória e foram derrubadas não pelo excesso dele, mas por circunstâncias do esporte. Elementos que fazem dele um imã das gentes. É clichê, mas é real. Competições curtas assim sempre sujeitam os favoritos à tristeza abrupta, não cogitada. Em dois dias, os exemplos foram fartos, não se resumiram às moças brasileiras. O basquete feminino australianos foi arrasador nos quatro primeiros jogos e sucumbiu para a destemida Sérvia nas quartas. No vôlei masculino, o Brasil passou de fase quase a fórceps após derrotas para Estados Unidos e Itália e mandou embora a Argentina, sensação até então. E para não dizer que o cenário está restrito a esportes coletivos basta recorrer ao ouro do brasileiro Thiago Braz no salto com vara. O choro e os muxoxos do favoritíssimo francês Renaud Lavillenie sintetizam o inopinado.

Por mais que haja quem trate a ciência como religião, equiparando-se aos mais fanáticos crentes, para pegar carona em pensamento do professor Eduardo Giannetti no magistral livro “Trópicos Utópicos”, ela ainda não conseguiu desumanizar o esporte. Ufa! Saques na rede, gols perdidos, saltos que derrubam sarrafos ainda podem sair de mãos e pés de fenômenos esportivos. O erro é parte integrante da emoção produzida pelo esporte. Para voltar a José Roberto Guimarães e suas ponderações, é importante saber perder. Devemos aos pais da filosofia, os gregos, também parteiros dos Jogos Olímpicos, a ideia de que só conhece a felicidade quem degustou a tristeza.



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