Ganso e Sampaoli – Café com maestros



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Não é difícil imaginar por que Jorge Sampaoli pediu que o Sevilla contratasse Ganso. O jogador tem o talhe do meio-campista de um time comandado pelo argentino que revolucionou o Chile e o transformou em uma seleção de ponta. E o fez calcado em premissas claras: controle da bola, velocidade, movimentação… Tudo na esteira de Marcelo Bielsa, seu ídolo, como fartos perfis de jornais e revistas já evisceraram. Em um deles, magistral, da “El Gráfico”, Sampaoli é descrito como um “bielsadependente“, tendo construído seus conceitos de jogo ouvindo entrevistas do compatriota. Do inspirador têm algumas facetas que soam excêntricas, mas, e é isso o que importa, a obsessão por estudar e aperfeiçoar o jogo ofensivo.

Ganso terá com Sampaoli a chance de atingir patamar proporcional a seu talento. Sai do São Paulo com bons números, como o jogador mais importante da equipe, o que não é pouco. A expressão de desespero de Bauza quando o meia sofreu a lesão diante do Fluminense foi eloquente. Ganso deu 49 assistências em 221 jogos com a camisa tricolor. Mas desde que apareceu no Santos até hoje a expectativa de que pode honrar a mais fina flor da camisa 10 não se consolidou inteiramente. Falta um “salto“, que talvez passe por algum tipo de protagonismo mais evidente, como ser “o cara“, ou ator fundamental, de um título de clube ou seleção. É evidente sua capacidade de clarear jogadas, encontrar brechas onde elas não são explícitas, ver o que ninguém vê – palavras de Bauza – e servir companheiros para que eles se consagram é artigo raro. São qualidades de Zidanes, Alex e Iniestas da vida.

A era Sampaoli no Chile teve seu ápice com o troféu da Copa América de 2015. E nela um meia com características parecidas com as de Ganso se destacou: Valdivia. O ex-jogador do Palmeiras já expôs o quanto o técnico argentino foi fundamental para seu desabrochar na “Roja”. Sampaoli cuidou de extrair dele o máximo que poderia. É animador pensar que possa repetir a dose com seu novo pupilo. O jogador foi um pedido expresso do técnico, incluido no balaio de outros atletas de “toque de bola“, o que mostra o desejo de executar no clube espanhol a fórmula implantada na seleção sul-americana.

Os técnicos que dirigiram Ganso sempre demonstraram inquietação na busca por seu espaço ideal em campo. Muricy queria vê-lo mais próximo do gol, Osorio e Bauza tentaram aproveitá-lo de forma mais ampla e agora comenta-se que Sampaoli o imagine como uma espécie de Pirlo, mais recuado, como volante, sendo o homem incumbido de iniciar a armação das jogadas, ditar o ritmo do jogo da equipe.

Logo após a concretização da transferência, o site do clube espanhol estampou: “Paulo Henrique Ganso, muita qualidade no Sevilla”. Foi esse virtuosismo que o levou a ser chamado no Brasil de maestro, aquele que rege a orquestra. Em espanhol, maestro é professor, algo que rima com Sampaoli. E é curioso que essa simbiose possa acontecer quando a Seleção Brasileira estará finalmente nas mãos de um técnico moderno, o melhor do país nos últimos anos. Tite é um estudioso, já deu mostras de gostar que sua equipe tenha a bola, e pode se favorecer imensamente caso Ganso entre em sintonia com o argentino. É um cenário que pode tornar o meia assíduo na Seleção, ocupando o espaço que, desde os apelos inúteis a Dunga para convocá-lo ainda molecote, no Mundial de 2010, pareceu destinado a ele. Aos 26 anos, ainda é jovem na pirâmide etária da bola e tem tempo para entrar na faixa dos jogadores expecionais, transformando seu potencial em máxima realização.



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