Cristiano ‘Sebastião’ Ronaldo



cristiano Ronaldo

FOTO: AFP

Faz mais de um século que a monarquia foi abolida em Portugal, mas no último domingo cetro e coroa foram restituídos provisoriamente. Cristiano Ronaldo tomou os símbolos da realeza como se fosse Dom Sebastião enfim regresso da batalha de Alcácer-Quibir, redivivo, para festa dos lusitanos. Curioso que um dos maiores jogadores de todos os tempos, que polariza com Messi na disputa pela hegemonia atual, não tenha praticamente atuado no jogo que deu ao país a maior de suas glórias futebolísticas. Depois de ter feito três gols na caminhada até a decisão, o atacante foi alijado da final após sofrer uma falta (impossível saber se a entrada de Payet foi maldosa ou casual). E então escreveu um dos capítulos mais incríveis de sua já incrível trajetória sem que dele constem cabeçadas, chutes e gols. Das lágrimas pela lesão ao apoio individual a cada atleta antes da prorrogação, Cristiano exibiu desejo de conquistar que não foi anestesiado pelo currículo cravejado de ouro. Apenas um mês e meio antes havia sido campeão continental pelo Real Madrid, o terceiro troféu da competição de clubes. Ali no Stade de France, porém, divisava a chance de uma façanha única para si e seus conterrâneos. Algo que nem Eusébio e nem Figo, dois ídolos portugueses, conseguiram.

Portugal não teve Cristiano em campo contra a França, mas não chegaria ao título sem o astro. Maior artilheiro da seleção, foi do atacante o gol que atirou as caravelas ao mar contra País de Gales, em uma cabeçada de impulsão digna de Pelé. Mais do que isso, sua presença é naturalmente inspiradora para os companheiros e geradora de preocupação nos adversários. Ter um jogador desse nível é um trunfo que não se mede. Pode parecer exagero dizer que Cristiano foi para os portugueses o que Maradona representou para a Argentina no Mundial de 86, dadas as jogadas antológicas que o Pibe fez no México, mas no balanceio entre o nível coletivo e o engajamento do jogador a comparação faz sentido.

O roteiro da decisão, nova demonstração da infinita capacidade do futebol de ser original, suprimiu do jogo o melhor entre os que lá estavam e fez a definição sair dos pés de um “patinho feio”, definição roubada da crônica portuguesa. Mas esse desfecho só foi possível para Éder porque Portugal tinha seu craque a conduzi-lo até tal estágio. Singrado o oceano, em terra, o povoamento torna-se viável, para usar metáfora apropriada aos históricos heróis do mar.

A mariposa que pousou no rosto de Cristiano enquanto ele chorava tornou-se sopro do destino: “Calma, o desfecho será teu, ó pá”. Foi como se um novo fado se anunciasse. O destino a bafejar. Passou a mensagem de que um jogador muitas vezes visto como pleno de vaidades e escasso de coração é, na verdade, um apaixonado. Foi como se a “autopsicografia“ de Fernando Pessoa se fizesse presente: o craque ”é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”.
A vibração com o troféu parecia a de um gajo sendo apresentado pela primeira vez à vitória. E em um esporte tão competitivo, que exige tanto do físico, só é possível chegar ao patamar que o português chegou com uma dedicação absoluta. Em fim de temporada já exitosa, com o troféu mais almejado entre os clubes, Cristiano não foi à França desfrutar de fama e fortuna. Ao contrário de Messi e Neymar, protagonistas em seleções habituadas a pontificar, de quem se espera título, o jogador do Real nunca sofreu pressão por brilhar pela seleção Ibérica. O espírito vencedor, a gana de querer mais, o moveram. E veio um título que parecia improvável.



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