A Marselhesa x A Portuguesa: futebol, a guerra por outros meios



torcidas frança e portugal

(FOTO: AFP)

Minutos antes de a bola rolar para a decisão da Eurocopa, no próximo domingo, o Stade de France abrigará um concerto de vozes entusiasmadas: “Aux armes citoyens! Formez vos bataillons!”. O famoso hino francês convocando os cidadãos para as armas, para que formem seus batalhões, costuma inflamar torcedores e jogadores dos Bleus. A beleza melódica é o que cativa, arrepia até mesmo muitos estrangeiros que nem supõem ter a letra um caráter bélico. No mesmo cerimonial, mas com um “exército” musical menor por serem visitantes, os portugueses farão seu clamor marcial, como se dessem uma resposta cantada antes que os pelotões se choquem “Às armas, às armas, contra os canhões marchar, marchar!”.

O futebol está familiarizado com a linguagem de guerra. Está cheio de alegorias a respeito, como os chutes que viram bombas, petardos e canhões ou os ataques pelo alto que são descritos como bombardeios aéreos. Muitas jogadas foram batizadas com expressões de batalhas. De certa forma, se a guerra é a política por outros meios, como na definição clássica de Carl Von Clausewitz, o futebol é a guerra por outros meios. O livro “A arte da guerra”, tratado militar escrito em tempos anteriores a Cristo, já esteve na cabeceira de muito treinador. E, embora tenham sido compostas para insuflar exércitos, as canções nacionais são hoje vistas como metáforas supostamente capazes de estimular os jogadores como se estivessem de fato no front. Nem que esse estímulo dure poucos minutos, já que é difícil crer que os ecos musicais sobrevivam a outras situações que se processam em uma partida.

A Marselhesa e A Portuguesa, hinos nacionais dos finalistas da Euro, rementem a momentos antigos, em que o continente vivia em permanente estado de tensão e guerra e a paz não era exatamente um dogma civilizacional como hoje. O primeiro, composto durante Revolução Francesa, no fim do século XVIII, chega a advertir que o inimigo chegará para degolar filhos e esposas. E, no auge da exaltação, no refrão, avisa que o sangue impuro dos oponentes banhará o solo pátrio. Este trecho foi o que fez o atacante Benzema, de origem argelina, recusar-se a cantar o hino por considerá-lo xenófobo. O lusitano veio cerca de um século depois, inspirado justamente na Marselhesa. Na versão original, eles não lutavam genericamente contra os canhões. Eram os bretões, os britânicos, os adversários identificados.

Ainda que as letras pareçam anacrônicas, os hinos não são itens supérfluos nas competições esportivas. Se o estádio lotado interfere na atmosfera do jogo e no comportamento de atletas, não dá para desprezar a força desse tipo de manifestação. Só não se deve superdimensionar seu poder. Fosse assim, o 7 a 1 da Alemanha jamais teria ocorrido após o hino brasileiro à capela.



  • Vitor Rodrigues Francisco Jr

    O certo no hino luso é contra os canhões marchar,marchar!

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