O choro de Pedro Henrique no futebol real e de viés



pedro henrique

FOTO: Thomas Santos/LANCE!Press

O choro copioso do garoto Pedro Henrique no gramado do Mineirão foi das cenas mais marcantes da semana esportiva. Quiçá do ano! A frustração, o desconsolo do zagueiro corintiano por ter errado no lance do gol da vitória do Atlético-MG expressou-se em lágrimas. Humano, demasiado humano. E as reações ao pranto foram de humanismo equivalente, o que, sem querer ser melodramático, mas já sendo, é um alento nestes tempos em que a barbárie vive mostrando seu focinho encarquilhado.

Logo depois de o equatoriano Cazares passar por Cássio e completar para a rede, a câmera flagrou Pedro Henrique meio trôpego, como se tivesse saído de seu centro. Perdeu o chão. Era o baque. Com 20 anos, o zagueiro está na fronteira entre a adolescência e a vida adulta. Está iniciando sua vida na equipe profissional, era apenas seu terceiro jogo, e tem demonstrado bom potencial. O passe fraco para trás, como que um presente para o inimigo, fulminou suas expectativas de momento. Imaginem a frustração que não sentiu. A vida é real e de viés, nos ensinou Caetano. Quantas vezes não acontece algo assim no cotidiano de cada um?

Adversários experientes como Dátolo, Robinho e Fred se aproximaram para dar palavras de conforto e incentivo. Ficaram apiedados. Sentiram compaixão, Certa vez, me vi comovido com a leitura de uma coluna do já falecido psicanalista e educador Rubem Alves em que ele explicava o real sentido dessa palavra: “(…) Compaixão, no seu sentido etimológico, quer dizer “sofrer com”. Não estou sofrendo, mas vejo uma pessoa sofrer. Aí, eu sofro com ela. Ponho o outro dentro de mim(…)”

Os jogadores que consolaram Pedro Henrique e os torcedores que mandaram apoio a ele pelas redes sociais sentiram compaixão, aliaram-se ao seu sofrimento. Coletivizaram o sentimento individual, como um recurso que dá força e estímulo para a reação. O abatimento poderá traduzir-se em potência reativa a partir do amparo que recebeu.

Embora seja o futebol um esporte de conjunto, as individualidades ganham destaque, para o bem e para o mal. Tende-se a tomar a parte pelo todo. Por isso, elege-se o craque, o mico, o frango, a muralha, etc.. Barbosa passou a carreira carregando nas costas o fardo do gol tomado na decisão da Copa de 50. Toninho Cerezo cometeu erro parecido com o de Pedro Henrique, porém em um jogo mais importante, no Mundial de 82. Até hoje as lembranças da chamada “tragédia do Sarriá” trazem no bojo a oferenda de Cerezo para Paolo Rossi. E há outros gêneros de erros fatais, como pênaltis perdidos em decisões – craques como Zico, Baggio, Platini e Raí passaram pela experiência. Na dinâmica do destino, o grande jogador acaba fintando a adversidade com conquistas e momentos bons. Pedro Henrique está começando, tem o tempo a seu favor.



  • Jean Oliveira

    Demonstra comprometimento, cumplicidade e caráter nesse meio corrompido do futebol onde só vemos “estrelinhas”, que esse erro o fortaleça como cidadão e como pessoa antes de td, aos que se solidarizaram, principalmente os já consagrados, meus parabéns, pois nessa “sociedade individualizada” isso é raro.

MaisRecentes

Neymar, entre a guilhotina e ‘la vie en rose’



Continue Lendo

Do ‘gênesis ao apocalipse’, Felipe Melo tropeça no verbo



Continue Lendo

Um Dérbi sob o signo da invencibilidade



Continue Lendo