Eurocopa – Fama e fortuna não mataram a alma



Bale                                                                      (Foto: Philipp Huguen / AFP)

Gareth Bale é uma estrela do Real Madrid. Na engrenagem que move o negócio do futebol dito moderno, não é um mero atleta, é um popstar. Ganha em um mês o que os reles mortais precisariam de umas dez encarnações para juntar – isso com muita frugalidade. Protagoniza comerciais em que parece personagem de filmes da Marvel, com superpoderes. Atua no provavelmente mais midiático dos clubes de futebol, aquele que já batizou seus atletas de galácticos, chancelando a ideia de que são seres de outra dimensão. Deve essa condição a seu talento, albergado em uma máquina de produzir fábulas de dinheiro. Isso não o fez perder sua alma, como podemos atestar na Eurocopa que está acontecendo na França. Já esfalfado pelo fim da temporada, disputada em altíssima intensidade, e na qual foi campeão continental pelo clube, mostra disposição intacta, máxima, para emprestar seus últimos respiros a defender País de Gales.

Bale é o principal jogador da nação britânica que faz sua estreia no torneio. Os galeses não disputam uma competição desse porte desde 1958, quando tiveram a paradoxal honraria de levar o primeiro gol de Pelé em uma Copa do Mundo. É um time modesto, que tem em Bale e Ramsey, do Arsenal, pontos isolados de fama e fortuna. O atacante do Real tem mostrado imensa alegria e motivação com a chance de defender sua terra no torneio. O que já conquistou, o status que tem, não inibiram sua conexão com as origens. A forma como cantou o hino e comemorou os gols contra Eslováquia e Inglaterra foram das imagens mais marcantes até o momento. Ao fim dos jogos, vimos aquele mesmo jogador, com o penteado de coque samurai usado no Campeonato Espanhol e na Liga dos Campeões, conclamando os companheiros a se reunirem no centro do gramado para reforçar um pacto de união nacional.

Nada disso se confunde com nacionalismo xenófobo, uma das pragas da história humana e que tem botado o focinho de fora na crise dos imigrantes. Pelo contrário. Bale convive diariamente com jogadores de várias nacionalidades, é um dos inúmeros filhotes da globalização. No seu caso, expressada no esporte. Sua trajetória é a de muitos em um mundo de fronteiras mais voláteis. É justamente esse contexto que reforça sua comoção. Vê na Eurocopa a chance de se reencontrar com sua identidade, como o bom filho que por instantes à casa torna para doar um pouco do seu talento à sua gente.

É comum ouvirmos que os jogadores atuais não se sentem mais tão estimulados a defender as seleções dos seus países. Vemos, porém, diversas vezes imagens que desmentem esse conceito. O francês Payet, autor do gol da vitória sobre a Romênia, chorando ao fim do jogo, a alegria de Schweinsteiger no segundo gol da Alemanha diante da Polônia e Bale de braços erguidos para cima são alguns dos vários sintomas a comprovar a permanência da alma no futebol.



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