Vai, Geuvânio, ser retirante (de novo) na vida!



geuvanioFOTO: Ricardo Saibun/AFIG/Lancepress

Geuvânio tem como segundo sobrenome o mais comum entre os brasileiros, o Silva. Sua família é de origem bastante simples, como a de tantos homens e mulheres em um país de péssima distribuição de renda. Nasceu em Ilha das Flores, pequeno município de pouco mais de oito mil habitantes margeado pelo Rio São Francisco, o Velho Chico. Quando o pequeno Geuvânio tinha apenas dois anos, os pais seguiram o roteiro clássico dos retirantes em busca de uma vida melhor na cidade grande. Abandonaram a terra natal, onde chegaram a viver em casa de palha e tirar a subsistência da agricultura, para buscar melhores dias em São Paulo.

Eis que Geuvânio tornou-se jogador de futebol, sonho compartilhado por inúmeros meninos. Chegou a vestir a camisa 10 do Santos, a 10 de Pelé, e ser campeão paulista. Realizações restritas a ínfima parte dos atletas que conseguem alcançar o profissionalismo. Ganhou estima da torcida e caminhava para mais uma temporada promissora. Até que recebe uma proposta milionária da China para ganhar um salário dez vezes maior. Aos 23 anos, vê a oportunidade de tornar-se milionário. Lembra da vida sofrida dos pais, da casa de palha, das privações e a cabeça gira. Vai ser retirante pela segunda vez. Mas ao contrário da primeira, quando para seus pais era um palmilhar nutrido de esperanças, agora, depois de já ter cimentado caminhos bem melhores, ruma não só para exorcizar o passado como para assegurar que filhos, neto, bisnetos e, quiçá, trisnetos usufruam de cotidianos que nem rocem nesse passado.

As negociações entre Tianjin Quanjian e Santos se arrastaram. Os dias devem ter sido confusos na cabeça do atacante. A proposta não era para jogar em um grande clube europeu, mas o transformaria da noite para o dia em milionário. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, ensinaram-nos os versos de Caetano. O íntimo de Geuvânio é inescrutável, como o de qualquer pessoa. O fato é que julgar escolhas pessoais fica mais difícil diante de uma biografia como a do agora ex-jogador santista. Tinha em suas mãos o condão de garantir que nunca mais seus familiares passarão dificuldades. Recusar era fazer uma aposta às cegas em profissão que tem na brevidade sua característica principal, E se o futuro lhe reservasse uma lesão? E se nunca mais aparecesse uma chance assim? E se não conseguisse se manter em um clube grande? Viveria para sempre se remoendo. Agora fará um robusto pé de meia e a idade ainda possibilita um retorno para jogar em alto nível. Por isso: Vai, Geuvânio, ser retirante (de novo) na vida!



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