Ganso precisa mesmo se recuperar?



gansoFOTO: AFP

O novo técnico do São Paulo, Edgardo Bauza, afirmou na semana passada que quer recuperar Ganso para “devolvê-lo à Seleção”. Uma importante estatística de 2015 indica, porém, que se o meia mantiver o nível do futebol exibido já oferecerá motivo a torcedores e crítica para elogiá-lo. E que uma exaltação mais contundente do desempenho do jogador dependerá mais do time como um todo do que propriamente de seu brilho individual.

Ganso deu 14 assistências para gol no ano passado, terminando como o líder da equipe nesse quesito. Foi o garçom do São Paulo, para usar jargão comum do futebol. Teve o melhor rendimento da sua carreira por um mesmo time em uma temporada. A assistência é item fundamental na arquitetura do gol. Ser o número um nesse tópico está longe de ser algo desprezível. O dado expõe o grau de relevância que teve para o time. É um número que não pode ser jogado no conceito sardônico, atribuído ao economista Roberto Campos: “Estatística é como o biquíni, mostra tudo, menos o essencial”. O passe para gol é autoexplicativo por sua importância.

Quando despontou no Santos, Ganso foi valorizado por ser um meia de características raras no futebol brasileiro atual. Não é um condutor de bola, um driblador, um armador propriamente, mas sim um virtuose no passe. O sujeito que recebe e já encontra um companheiro em espaço impensado. Tem raciocínio rápido e qualidade para transformar o que enxerga subitamente ou intui em assistência. Sempre foi assim. Às vezes também aparece como finalizador, seja da entrada da área ou dentro dela. E no time litorâneo tinha Neymar como parceiro, o que não é pouca coisa. Foi multicampeão no Santos porque dava assistências e tinha na equipe um jogador que acaba de figurar entre os três melhores do mundo. Fazia, e bem, o seu, e contava com a exuberante individualidade do atacante.

O julgamento impiedoso sobre o meia parece se prender mais a um impressionismo que à realidade. Percepções que não casam com os fatos. O colombiano Juan Carlos Osorio, que teve curta, mas fértil passagem pelo São Paulo, chegou a declarar que o estilo de Ganso “sugere apatia”. Considerava isso uma interpretação errada do seu jogo. Náo foram poucos os ótimos jogadores que sofreram por juízos enviesados. Basta lembrar que Alex, tão festejado no ano retrasado ao encerrar a carreira, ganhou apelido de Alexotan, em referência ao medicamento para dormir. Dodô não foi só chamado de artilheiro dos belos gols, mas também de dorminhoco. Giovanni, idolatrado pelos santista em 95 por épico jogo contra o Fluminense, despertava caretas por ser “lento”. Os exemplos são fartos, basta remexer na memória.

Já vi gente dizer que na Europa Ganso ficaria sumido por sua pouca mobilidade. Tenho dúvidas. Consigo imaginá-lo jogando em alto nível no futebol inglês, justamente o mais intenso de todos. Suponho que seu estilo, calcado em passes de primeira – é assim que gosta de atuar, como já disse em entrevistas – se desenvolveria muito bem por lá. Pena que pelo andar da carruagem a prova dos nove não poderá ser tirada. Se o São Paulo tivesse conquistado títulos ano passado, aparecendo como líder de assistências estaria no topo das predileções. Como o resultado e as impressões prevalecem no futebol, está na lista de prioridades do novo técnico tricolor como quem precisa ser recuperado.

Nas entrevistas, Ganso passa um ar blasé e isso acaba também interferindo nos pareceres. Já deu declarações bastante pernósticas, como aquela em que afirmava não ver ninguém melhor que ele como armador no Brasil. Parece não estar muito preocupado com o que dizem a respeito do seu futebol e de suas autoavaliações. Não era diferente na época do Santos, mas foi um período vitorioso e então as loas prevaleceram naturalmente. Bom que Bauza queira devolver Ganso à Seleção e queira estimulá-lo mais. No entanto, se tiver uma equipe mais completa e funcional precisará apenas que o meia siga dando assistências preciosas. o que tende a acontecer porque essa costuma ser sua marca registrada.



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