Damião x Santos: o bonde e a esperança



damiaoFOTO: Ivan Storti

No dia 9 de janeiro de 2014, há praticamente dois anos, portanto, Damião era apresentado no Santos. O evento teve pompa e circunstância, como diriam os cronistas antigos. O atacante simulou ser condutor de bonde, em golpe de marketing romanesco. e foi acompanhado pelo rapper Emicida, torcedor do clube, na entrevista coletiva. Nela, falou que sentia-se emocionado por vestir a camisa santista e mais tudo aquilo que diz todo jogador, nesse cotidiano de frases feitas do futebol.

Passados 24 meses da festa do bonde, Damião vê-se mergulhado em uma briga jurídica infindável com o Santos. Quando parecia favas contadas a vitória do atacante no contencioso, eis que na última segunda o clube obteve uma medida cautelar determinando que o contrato seja cumprido. E o vínculo assinado entre as partes estipula multa de R$ 200 milhões, para clubes brasileiros, e superior a R$ 800 milhões, para clubes estrangeiros, caso haja rescisão. São as cifras de um negócio incompreensível desde o início.

Para Damião, vestir a camisa do Santos agora não seria um sonho, mesmo que afetado, mas um pesadelo real. Na esteira de vários outros, como Arouca, Mena e Aranha, o jogador acionou a Justiça do trabalho no início de 2015 para liberar-se do clube por falta de pagamento de salários. Com os outros houve acordo. Com o atacante, não. O motivo é dinheiro, muito dinheiro. A transação costurada para que Damião chegasse ao Santos e assumisse a condução do bonde teve engenharia e valores pouco comuns para os padrões nacionais. O negócio gerou um fardo financeiro enorme.

Presidido então por Odílio Rodrigues, o clube tomou emprestado de um fundo de investimentos mais de R$ 42 milhões para contratar o jogador do Internacional. Assim, assumiu dívida astronômica com o credor e mais juros por um atleta que, apesar de novo, vinha em xeque. Olhando em retrospectiva, o negócio suscita uma dúvida central: Como o antecessor de Modesto Roma pôde admitir tal dívida se poucos meses depois passaria a “saltar” inúmeras folhas de pagamento, legando a quem assumisse o posto os tais processos jurídicos e dando mostras de que as contas santistas eram incompatíveis com uma transação dessa dimensão?

Nessa novela, ninguém quer perder o bonde nem a esperança, como aconteceu com o personagem de soneto de Drummond. O Santos não desiste do processo porque fazê-lo será uma espécie de haraquiri financeiro. O clube tem penado para manter as contas em dia e tenta driblar um dos piores negócios da sua história. O jogador estava de pleno de seus direitos ao acionar o clube que o devia e, seja por conselhos de sua “entourage” ou vontade própria, recusa-se a arredar pé e retornar ao Santos.

No meio desse cipoal, vê-se um jogador que, apesar de ainda jovem, começa a ficar distante da trajetória prometida. Em 2012, foi titular e artilheiro da Seleção Brasileira na conquista da medalha de prata olímpica. Depois disso, murchou. Nem cogitado foi para a disputa da Copa do Mundo. Teve temporadas apagadas por Santos e Cruzeiro nos dois últimos anos. E não sabe onde jogará por conta de uma batalha nos tribunais.



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