Libertadores obsessão, pero no mucho…



Na sua entrevista de apresentação no São Paulo, o técnico Edgardo Bauza disse que a Copa Libertadores é uma obsessão para os grandes times do continente. Curiosamente, ele assume um clube que por muitos anos ficou associado diretamente ao torneio. Os três títulos em 13 anos – que vieram acompanhados de três taças do Mundial de Clubes – deram ao Tricolor paulista uma crista de time internacional. O clube escorou-se sabiamente na assiduidade e bons resultados no certame continental para vender a imagem de vocacionado ao além-fronteiras. O apelido de Soberano advém dos diversos títulos, inclusive nacionais, mas não teria se popularizado, caído no gosto da torcida, não fosse a intimidade são-paulina com a Libertadores.

O apogeu dessa fama deu-se no período que vai de 2004 a 2010, com as sete participações seguidas na Libertadores, com um título e um vice. Nos últimos anos, porém, essa associação perdeu o viço. O Tricolor ficou ausente de algumas edições, levando vida mais doméstica, e, de quebra, viu o rival Corinthians acabar com as piadas sobre “falta de passaporte” ao levantar o caneco em 2012.
Por essa trajetória declinante, Bauza assume um clube ainda mais obcecado pela Libertadores. A festa de despedida de Rogério Ceni, que reuniu as duas gerações de campeões mundiais pelo São Paulo, foi como o acender da fogueira desse desejo. A escassez generalizada de títulos – ironicamente, o único em sete anos foi de outro torneio organizado pela Conmebol, a Copa Sul-Americana de 2012 – jogou ainda mais lenha nessa fornalha.

Sabedor disso, após ressaltar a obsessão coletiva pela Libertadores, Bauza tratou de colocar água na fervura. Ponderou as dificuldades que o torneio oferece, em especial por ter no mata-mata seu modelo de disputa e a boa dose de imprevisibilidade que ele encerra. Nas duas últimas edições, nenhum time brasileiro alcançou a final, em que pese o orçamento mais graúdo em comparação com os vizinhos. E o São Paulo ainda terá a traiçoeira primeira fase, que já vitimou o Corinthians e força um planejamento emergencial por impor uma decisão logo de cara.

O São Paulo classificou-se na bacia das almas para o torneio. A quarta colocação no Campeonato Brasileiro foi um oásis em ano tão desértico. A enorme crise política, que levou à renúncia de Carlos Miguel Aidar e eleição para escolher novo presidentte, as incontáveis derrotas em clássicos, um time que não engrenou… Estar na Libertadores já é um milagre. A conquista é possível, mas o discurso judicioso de Bauza, um técnico que tem duas conquistas continentais no currículo por dois clubes diferentes, vem a calhar. Parece ser mais recomendável que a obsessão seja readquirir a dignidade são-paulina. Mehor olhar para o todo que para a fração, em especial neste momento.
A aposentadoria de Ceni, a saída de Luis Fabiano e o fim do contrato de Pato representam um esfarelamento. Bauza terá o desafio de tomar contato com os jogadores e fazer um trabalho a jato para os jogos decisivos com o peruano Cesar Vallejo. Passar será visto como obrigação. Cair terá tratamento de vexame, dado o tamanho dos dois clubes. Depois dessa etapa, as obsessões poderão ser melhor conduzidas e racionalizadas.



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