A chave de ouro de Ceni



Exatamente uma semana depois da belíssima festa de despedida de Rogério Ceni, os são-paulinos comemoraram dez anos do tricampeonato mundial. Em sete dias, deram adeus ao seu maior ídolo e lembraram uma conquista que só veio por atuação homérica do goleiro. Contra o Liverpool, naquele 18 de dezembro de 2005, Ceni foi de um gigantismo equiparável ao de Raí contra o Barcelona, em 92, no jogo do primeiro título mundial. A cobrança de falta do ex-camisa 10 no ângulo de um estuporado Zubizarreta, em Tóquio, é proporcional à defesa praticada por Ceni também em uma falta, executada por uma espécie de Rogério dos Reds, Gerrard, em Yokohama. A velocidade e elasticidade exibidas no lance demonstram que, embora tenha se consagrado como o maior goleiro-artilheiro da história do futebol, ele foi excepcional também nas funções precípuas da posição. E Ceni ainda fez duas outras defesas, primeiro em uma cabeçada e depois em chute à queima-roupa do espanhol Luis Garcia, que deram ainda mais musculatura para seu desempenho. Foi, para muitos, a maior atuação da carreira de Ceni. Eleito o melhor jogador do Mundial, fez o que grandes jogadores jamais conseguiram: ser “o cara” em uma final ou jogo realmente importante.

Ceni contou, em entrevista recente ao programa Bola da Vez, da Espn Brasil, uma dessas histórias curiosas de bastidores que, diante dos fatos transcorridos, dão ideia de como se constrói o destino de gente corajosa. Esportistas que unem ambição e determinação. Diante da torcida exasperada dos companheiros pelo Saprissa na semifinal contra o Liverpool, o capitão os questionou sobre o valor que teria ser campeão mundial vencendo os costarriquenhos. O troféu seria o mesmo, mas a essência não. Poucos dias depois, o time ficaria com o título superando os ingleses em jornada de gala de Ceni.

A carreira de Ceni não seria menos festejada na sexta retrasada se o São Paulo tivesse perdido para o Liverpool e não houvesse o que festejar na sexta passada. Mas aquela conquista, aliada ao que foi feito em campo pelo goleiro no Japão, acrescentaram alguns quilates à ourivesaria que suas mãos e pés fabricaram em 25 anos de trajetória.

O são-paulino teve um ano difícil, até mesmo ultrajante pelos lances folhetinescos que a política do clube viveu. A vaga na Libertadores, com o quarto lugar no Brasileiro, deu umas borrifadas na autoestima. Mas esta última semana, ao mexer com a memória de recentes glórias do clube, é que vieram como toques providenciais. Curioso que eles tenham vindo particularmente graças a Rogério Ceni. Sua despedida foi um espetáculo de reverência, mas criou de imediato uma lacuna imensa. A comemoração de dez anos do tri mundial, que teve no goleiro seu símbolo, redespertou a lembrança de um time vencedor. Este 2015 termina melhor por conta do passado. A última contribuição de Ceni ao clube foi, no final das contas, o conjunto da obra que o tempo apresenta. Ela vem sintetizada no título de dez anos atrás. Mostra que os homens passam e a instituições ficam, mas sem os homens elas não se engrandecem. Precisam de uma mão que se estica para defender a falta, de braços que ergam um troféu e de corações que se dediquem a elas.



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