O feudo do futebol precisa acabar



Os cartolas agem como se o futebol brasileiro fosse sua propriedade privada. Raí, craque dentro e fora de campo, foi na mosca ao definir a CBF como um “feudo que precisa ser quebrado”. O saudoso Sócrates, seu irmão, que também foi craque dentro e fora de campo, era crítico ácido desse modelo concentrador, de atrofia democrática, que vige por aqui. E o fez quando esses senhores feudais da bola andavam totalmente impunes, sem nem suspeitar que precisariam em algum momento renunciar ou pedir licença do cargo, encarar prisão domiciliar nos Estados Unidos em avançada idade ou mesmo evitar viagens ao exterior sob risco de captura pelo FBI. “Cagavam de montão“, para usar expressão asquerosa de um desses antigos chefões. Em 2001, o Doutor chegou a lançar uma “anticandidatura” à presidência da CBF como forma de protesto, denunciando o tal feudo evocado por Raí mais de uma década depois.

A CBF vive hoje a maior crise da sua história. E ela é desdobramento evidente de uma estrutura forjada para manter um grupo no poder. O fato de Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo del Nero, que têm juntos 26 anos de controle do esporte mais popular do país, estarem na mira do Departamento de Justiça dos Estados Unidos por corrupção, expõe os danos que a falta de alternância no poder gera. Com um precioso butim em mãos, representado pela Seleção Brasileira e os diversos torneios de clubes, e um modelo eleitoral que facilita a perpetuação, tornaram-se os donos do jogo. A montagem de um circuito de blindagem fica à mostra com a existência da “bancada da bola“. Um grupo de parlamentares que agem como porta-vozes do interesse dessa cartolagem, legislando em sua causa e tentando evitar pautas que a prejudique.

A manobra para eleger o Coronel Nunes e ter um vice mais velho que pertença à sua camarilha, pronto a assumir o “trono“ em caso de renúncia de Del Nero, é apenas mais um demonstrativo do organismo feudal descrito por Raí. O futebol, patrimônio popular, é assim tomado de assalto por um pequeno agrupamento de pessoas. Não querem largar o osso e, na atual conjuntura, temem que novas forças e mentes possam eviscerar ainda mais a carne podre que foi se acumulando em tantos anos de desmandos.

O protesto #OcupaCBF, lançado nesta semana, que tem o apoio de ex-jogadores, artistas e outras figuras importantes da sociedade, mostra que existe incômodo e mobilização para mudar o quadro. E o contexto de prisões e investigações abre caminho para que essa mudança aconteça.



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