A admirável carreira de Rogério Ceni



ceniCeni comemora tricampeonato brasileiro (AFP PHOTO/Mauricio Lima)

Em entrevista ao programa Bola da Vez, que foi ao ar esta semana pela ESPN Brasil, Rogério Ceni disse que no início da carreira não conseguia sequer bater um tiro de meta:

– Não tinha força!

Na noite desta sexta, despede-se do futebol como o maior goleiro-artilheiro da história da modalidade. Não rompeu marca centenária de bolas na rede, com precisas cobranças de falta e de pênalti, por dom, vocação, unção divina ou coisa que o valha. Foi treino, dedicação e senso de oportunidade. O talento não foi o fator primordial em seu caso, a não ser que consideremos persistência e obstinação manifestações de talento. E por que não?

Mas para além do fato de ter sido um goleiro que não se limitou a atuar com as mãos, é preciso exaltar Ceni por outros feitos incomuns, ao menos no Brasil. Especialmente por ter trilhado caminho do início ao fim no mesmo clube. Algo frequente nos tempos ditos românticos, em que as equipes eram associadas a um craque – o Santos de Pelé, o Palmeiras de Ademir, o Botafogo de Garrincha, etc… –, tornou-se motivo de orgulho para o torcedor que desfruta dessa fidelidade no seu time. São quase duas décadas em que Ceni e São Paulo confundem-se.

O são-paulino sentirá a partir de agora um vazio que com o tempo se transformará em saudade. Será uma espécie de luto em vida. Acostumar-se com a ausência de Ceni abrindo a escalação, liderando o time, defendendo o clube, no discurso e em campo, não será tarefa emocionalmente fácil. Já ouvi vários torcedores relatando a dor que sentem ao projetar isso. Irá agora de projeção a realidade. Uma expectativa ruim que, os mais cautelosos, já estão nutrindo há dois ou três anos.

É difícil encontrar alguma lacuna não preenchida. Ceni só não conquistou com a camisa tricolor a Copa do Brasil. Diante do volume e valor das glórias, é uma ausência irrelevante. O sujeito foi campeão em todos os níveis: estadual, nacional, continental e mundial. E o título do torneio da Fifa, em 2005, só veio por atuação inesquecível do goleiro contra o Liverpool. A defesa improvável em chute de Gerrard eternizou-se. Só concorre, em simbolismo, com o fato de ter marcado seu centésimo gol contra o rival Corinthians. Enredo perfeito demais para o clube.

A partir de agora, o São Paulo terá que se acostumar a falar de Ceni como jogador no passado. É imensurável sua contribuição ao clube, com defesas, gols, liderança e títulos. E as homenagens serão sempre merecidas.



  • Futuko Kubo

    Triste 2015, depois de perder Yoná Magalhães e Marília Pera, mais uma diva sai de cena, R. Ceni, o Vô mito.

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