Levir e a reinvenção de um técnico



levirFOTO: Divulgação

Levir Culpi foi, nos últimos 20 meses, uma novidade entre nós. Não, leitor apressado, você não leu errado. O técnico sessentão, exercendo das mais instáveis profissões do país há quase três décadas, trouxe frescor ao futebol brasileiro após alguns anos no Japão. As declarações francas e o futebol igualmente franco do Atlético-MG sob o seu comando foram surpresas agradáveis. Em um ambiente que mói técnicos sofregamente, na ânsia de respostas rápidas e irracionais, colocou diversas vezes o dedo na ferida em tom pedagógico. Maduro e, presume-se, com a vida ganha, não precisou fazer muitas concessões no discurso. Nada de adulações. Exerceu a liberdade crítica com o acúmulo de conhecimento e a sabedoria que a vivência dão a quem as permite dar.

Infelizmente, Levir deixou ontem o comando do Galo. Para os padrões brasileiros, até que ficou bastante tempo. Mas poderia ficar muito mais, se olhado o trabalho realizado nesse pouco mais de ano e meio e o que poderia vir a ser nos próximos meses. Levou o time ao título da Copa do Brasil de 2014 com futebol vistoso, dilacerando na final o rival Cruzeiro, que obtivera, no mesmo período, o bicampeonato brasileiro. A conquista encerrou uma seca de 43 anos sem uma taça nacional para a galeria do clube mineiro. Um baita feito. Neste ano, a equipe foi a única a rivalizar de fato com o Corinthians de Tite na briga pelo topo do Brasileirão. Chegou a liderar a disputa e a apresentar, no primeiro turno, futebol superior. A ponto de o confronto direto, na arena corintiana, ter sido descrita pela maior parte dos especialistas como uma derrota incompatível com o visto em campo.

A nova passagem de Levir pelo Atlético, a quarta pelo clube, mostra que renovação não é necessariamente uma questão de nomes, mas de posturas. Há treinadores que ficam ultrapassados porque aferrados aos conceitos do passado, seja no linguajar, seja no método. Jupp Heynckes amealhou a tríplice coroa com o Bayern de Munique com quase 70 anos. Seu trabalho não acumulava teias de aranha. Por outro lado, há “professores” novatos que parecem aplicar fórmulas ultrapassadas. Basta ser observador para notar.

Nos acostumamos no Brasil a jogar uma porção de técnicos no mesmo balaio. É mais um subproduto das trocas incessantes que os clubes fazem a cada três ou quatro resultados negativos. Mas, vez por outra, gente que está nesses cestos se reinventa e mostra que o rótulo não lhe serve. Foi assim com Tite. Foi de certa forma assim também com Oswaldo de Oliveira. E agora com Levir. Cada um com seu perfil, mas sem a intransigência como caráter supremo.



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