Um busto para a história verdadeira



bustoFOTO: Leandro Martins/Futura Press

Em 2012, o Corinthians inaugurou um busto em homenagem a Sócrates no Parque São Jorge. A peça mostra o ex-jogador, morto há quase cinco anos, com um braço erguido e o punho cerrado. Era o gesto clássico que o Doutor fazia ao comemorar um gol. Uma manifestação política de um dos mais politizados atletas que o esporte brasileiro já conheceu. Foi ele o líder mais famoso da “Democracia Corinthiana”. Sua célebre comemoração é icônica da relevância do movimento para a história do clube e está eternizada no jardim da sede. Mas, pasmem (!!!), para o atual presidente alvinegro, Roberto de Andrade, o processo deflagrado no início dos anos 80 “pouco contribuiu para o clube”.

A declaração do dirigente à CPI do Futebol, na última quarta-feira, é como o ricochetear do verbo contra si mesmo. É justamente graças ao legado da luta de gente como Sócrates, Wladimir, Casagrande e outras figuras engajadas de outras áreas que a liberdade de expressão existe hoje no país. A ousadia dessa turma condimentou os desejos de redemocratização do Brasil, que dava os primeiros passos para encerrar seu período de chumbo, no início dos anos 80. Enquanto a volta das eleições diretas para presidente era apenas um anseio da população brasileira, o grupo de jogadores fazia votações internas para decidir a rotina do time e envolvia-se nas ”Diretas Já”.

Na chamada sociedade do conhecimento, há fartura de meios para que versões deturpadas da história não vinguem. São muitas as obras que versam sobre a “Democracia Corinthiana” e a saliência de seu papel para o clube e a nação. Estudos acadêmicos não faltam. O documentário “Democracia em branco e preto”, de Pedro Asbeg, é uma boa fonte audiovisual para entender como “aquilo“, forma pejorativa com que Roberto de Andrade se referiu ao movimento, teve impacto em níveis diversos. O longa, narrado por Rita Lee, traz imagens de arquivo, entre as quais as dos comícios pelas eleições diretas, e depoimentos de atores variados – os ex-presidentes Fernando Henrique e Lula, por exemplo. Estes atestam a força social que emanava do que acontecia nos intestinos do clube. Sócrates e cia. beneficiaram-se de uma massa de apaixonados para reverberar suas ideias.

A Democracia Corinthiana germinou com a presença do sociólogo Adilson Monteiro Alves. Diretor do clube, ele deu voz aos jogadores e dali construiu-se uma filosofia. O Corinthians acabou, por esse canal, sendo um agente da redemocratização. Ainda bem que o busto de Sócrates brinda a história real diante de tentativas de fabulação.



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