Gabriel Jesus, hoje já é amanhã?



thomas santos                                                                                        FOTO: Thomas Santos/AGIF

Jesus do céu! Como jogou o menino Gabriel Jesus contra o Cruzeiro! No palco do mais diabólico resultado da história do futebol brasileiro – o 7 a 1 da Alemanha -, o garoto com pinta macunaímica, mas que não é nada preguiçoso com a bola nos pés, fez uma partida sacrossanta. E já tem gente alertando pra ter cuidado, para não exaltar, não estragar, não queimar, não endeusar… Canja de galinha decerto não faz mal a ninguém, como prega a canção de outro brasileiro criativo, o Jorge ben Jor. Mas o que os olhos veem, o coração sente, sim senhor, e a boca reproduz. Ou a escrita constata. Ninguém está inventando. O molecote de 18 anos fez contra a Raposa como o Gesù Bambino – o Jesus Menino – da música que na versão do Chico Buarque foi intitulada “Minha história”.  Chegou “sem muita conversa, sem muito explicar”. E realizou!

A manjedoura verde não tem sido muito prolífica em revelações. O jovem Jesus deu sinais de que seu talento pode ser lufada nessa terra erma. E se a partidaça foi no mesmo campo da humilhação brasileira de um ano atrás pode ser sinal de que o Deus do futebol, como o da cristandade, escreve certo por linhas tortas. Gabriel, nome que anda em voga pela qualidade no jogo de bola nacional – vide o volante também palmeirense e o Gabigol santista –, praticou em cima da defesa mineira o abuso que mitificou o craque brasileiro no imaginário mundial. A finta, o ludibrio, o improvável é a contribuição poética clássica do jogador local ao esporte. Isso foi visto no primeiro gol, com o passe de costas, com a sola do pé direito empurrando a bola para Barrios marcar. O inesperado, o imprevisível, o que rompe qualquer preparação tática. O talento individual servindo o coletivo. Depois, arisco, levou à expulsão do zagueiro Bruno Rodrigo, antes de fazer, aparecendo “do nada”, o segundo gol da equipe.

Foi no terceiro, porém, que o estereótipo do craque verde-e-amarelo se manifestou. O drible em Fabio, encontrando espaços onde não parecia haver, foi o toque de Garrincha na noite mineira. Há sempre quem vá lembrar os talentos que não vingaram. Se há os eufóricos crônicos, também há os prudentes em excesso. Aqueles que Nelson Rodrigues classificaria de “idiotas da objetividade”. O presente é nossa matéria, ensinou-nos e legou-nos Drummond. “Uai, mãe, hoje já é amanhã?, pergunta outro menino, o Miguilim, nos escritos de Guimarães Rosa. Não, o amanhã chegará a seu tempo. A quarta encantada de Gabriel Jesus pode ter sido uma pequena faísca de um fogo maior. O tempo dirá!



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