A síndrome de Chantecler em ruínas



blatter - Fabrice Coffrini                                                                                                                                                                                                          Fabrice Coffrini/AFP

Muitos cartolas sofrem da síndrome do galo Chantecler. A ave da fábula do francês Edmond Rostand acreditava que o sol só nascia porque ele cantava. Se ficasse mudo, a escuridão vingaria sem trégua. No seu discurso após ser reeleito presidente da Fifa, Joseph Blatter, que depois renunciaria, declarou que assumia a responsabilidade por “trazer a Fifa de volta”. Como seu antecessor e tutor João Havelange, parecia sentir-se um Luis XIV da bola, Le Roi-Soleil, o Rei Sol, homens ungidos para ditar os rumos do jogo mundo afora. Agora, propinas e outras sujeiras, que antes iam para debaixo do tapete, parecem estar iluminadas pelo mesmo sol que julgavam obedecer a seus comandos. Uma ideia, reproduzida de forma paroquial, em confederações diversas. Em especial nas américas, como pudemos notar com o enquadramento de uma porção de cartolas no continente.

Há Chanteclers detidos na Suíça e nos Estados Unidos, ironia das ironias, vendo o sol não só nascer, como nascer quadrado. E outros temem ter o mesmo destino. A mensagem-mãe desse escândalo que põe em xeque a cúpula do futebol mundial é de que “amanhã vai ser outro dia”, como na canção de esperança de Chico Buarque nos idos da ditadura militar. Os chefões da Fifa, sempre cheios de si ao dizer que a entidade tem mais membros que a ONU, apostavam na blindagem eterna. A mentalidade foi replicada na CBF, que escudou-se no poder da Seleção Brasileira para exibir-se bem-sucedida. A ponto de ser inacreditavelmente classificada de “o Brasil que deu certo” por Parreira. As tramas urdidas nos bastidores vêm a público dia após dia e mostram à opinião pública apaixonada por futebol que o jogo está cheio de máculas. Um negócio bilionário do qual poucos se locupletam às custas dessa paixão genuína.

A escala desse terremoto que sacode o futebol tende a aumentar. As investigações da Justiça Americana dão sinais de que irão cavar ainda mais fundo, podendo atingir mais gente e revelar mais podridões. Há muitos interesses em jogo, é evidente. Os americanos perderam a Copa de 2022 e isso foi um duro golpe para eles, ainda mais com tantas suspeitas de que a escolha do Qatar passou pela compra de votos. Mas qualquer que seja o motor dessa empreitada, a consequência pode ser um divisor de águas. Para muita gente ainda soa quixotesco apostar nisso. Mas dias antes das prisões na Suíça quem dissesse que elas ocorreriam também seria classificado assim. Por isso, os acontecimentos recentes geram a esperança de vermos o futebol livre dos Chanteclers.



  • Luiz Meira Neto

    Belo texto, parabéns!

  • Ronaldo

    Ficaria muito mais feliz se, ficassemos livres do chantecler maior do Brasil, o barbudo de nove dedos.

MaisRecentes

Guttman, uma bela e vitoriosa trajetória



Continue Lendo

Palmeiras x São Paulo: rivais contra o vexame



Continue Lendo

Neymar, entre a guilhotina e ‘la vie en rose’



Continue Lendo