A alforria para as histórias humanas da bola



garrinchaA vida de Garrincha é contada em “Estrela Solitária” por Ruy Castro (FOTO: Agência O Globo)

A história, e a preservação da memória do futebol brasileiro, obtiveram uma vitória imensurável nesta semana. A decisão do Supremo Tribunal Federal de liberar biografias não autorizadas foi um golaço a favor da liberdade de expressão em todas as frentes, e o jogo de bola, assim como os esportes em geral, serão grandes beneficiários do veredito unânime da suprema corte. Conhecer a fundo a vida e a trajetória de grandes figuras da modalidade número um do país, e assim contar a história de parte importante da nossa identidade, só é possível sem os obstáculos legais que vinham se interpondo. Até que o STF desse seu parecer havia um suposto conflito entre a liberdade de expressão, consagrada na Constituição de 88, e os artigos 20 e 21 do Código Civil, que, em linhas gerais, permitiam a retirada de circulação de biografias em caso de pedido do biografado – como no caso do cantor e compositor Roberto Carlos – em nome da inviolabilidade do direito à privacidade. Venceu a Constituição!

Já há publicadas preciosas biografias de grandes personagens do futebol local. Talvez a maior delas, a mais conhecida, seja Estrela Solitária, do consagrado biógrafo Ruy Castro. A obra, que conta a vida de Garrincha, uma das legendas do esporte nacional, foi uma das vítimas da censura prévia que vinha prevalecendo. O riquíssimo livro foi expulso das livrarias a pedido das filhas de Mané e agora poderá voltar. O livro foi um dos citados pelo ministro Luis Roberto Barroso durante explanação do seu voto.

joao saldanhaJoão Saldanha é retratado em “João Saldanha, uma vida em jogo”, de André Iki Siqueira (FOTO: Divulgação)

 

Só podemos conhecer mais a fundo a prolífica vida de João Saldanha e as venturas e desventuras de Heleno de Freitas graças a biógrafos, que são uma mistura de jornalistas e historiadores. André Iki Siqueira escreveu “João Saldanha, uma vida em jogo”. Marcos Eduardo Neves é o autor de “Nunca houve um homem como Heleno”. Os escritos foram parar no cinema, serviram de inspiração para documentário e ficção. Essas produções literárias e audivisuais contribuem para manter acesa a memória nacional. Esse é um bem inestimável. A ministra relatora da sessão do STF, Carmen Lucia, resumiu lindamente a relevância das biografias: “A história humana se faz de histórias humanas”.

No primeiro século da era cristão, Suetônio narrou “A vida dos doze césares”. Não fosse esse abrangente texto a humanidade saberia menos de uma das suas civilizações mais importantes. As biografias das grandes personalidades do país são como faróis de autoconhecimento e também serão bússolas para as próximas gerações. Como ter alguma dimensão do impacto que a derrota na Copa de 50 teve no orgulho nacional sem que se fuce a vida de quem participou diretamente desse episódio? A crucificação absurda de Barbosa pode empalidecer conhecendo-se sua história, sua carreira além do jogo contra o Uruguai. E com as amarras da autorização ficaríamos bastante limitados.



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