Políticos e cartolas são todos iguais?



marinFOTO: Arquivo LANCE!

A ideia brasileira de que todo político é corrupto se aplica também à cartolagem do esporte. Há quem veja nisso um conceito generalizador, metonímico, que toma a parte pelo todo e, assim, provoca injustiças. É verdade, por vezes homens bem intencionados, probos, recebem rótulos por culpa de outros da mesma esfera de atuação. Mas aqui está o ponto central: quando a classe está profundamente desmoralizada todos acabam pagando. Especialmente quando a impunidade predomina, reforçando a sensação de avacalhação e falta de princípios mínimos de conduta.

A prova de que os dirigentes esportivos caíram no mesmo descrédito dos políticos – e a distinção aqui é formal, já que cartolas agem politicamente e vivem ingressando na política institucional – foi a reação no Brasil à prisão de figurões da Fifa em Zurique. A ação coordenada pelo FBI, a agência de investigação americana, com a cooperação das autoridades suíças, causou surpresa. Ver gente graúda do futebol mundial, como ex-presidentes de federações e confederações, além de vices-presidente da Fifa, detida era inimaginável para cidadãos que acompanham o esporte. Os que mantinham a fé de ver os fétidos esquemas de corrupção desbaratos são tratados como quixotescos, quase idiotas, como o príncipe Michkin, de Dostoiévski.

A perplexidade foi suavizada pelo fato de toda a ação partir dos Estados Unidos. Os comentários em redes socias reforçavam a ideia de que o Brasil trata políticos e dirigentes como seres quase inimputáveis. O histórico dá suporte a essa percepção. Entre 2000 e 2001, duas CPIs investigaram desmandos no futebol brasileiro. Seus imensos relatórios não deram em nada. Uma delas investigava especificamente o milionário contrato para a Nike patrocinar a Seleção Brasileira. Acabou em pizza. Ironicamente, esse contrato está no radar das operações comandadas pela procuradora-geral dos EUA, Loretta Lynch. Das CPIs, as pessoas mais lembram da sessão dantesca em que Ronaldo foi interpelado por um deputado sobre quem deveria marcar Zidane na final da Copa de 98. A relação de mútuos interesses entre o alto clero do futebol e o Congresso Nacional é ilustrada pela chamada Bancada da Bola – tropa de lobby indisfarçado.

Ricardo Teixeira só largou o osso da CBF quando as investigações na Suíça expuseram os esquemas de propina envolvendo dirigentes e a ISL, colocando também em maus lençóis seu ex-sogro João Havelange. Foram 23 anos no comando da entidade, dando sensação de perpetuidade típica da cartolagem. Não à toa, um das exigências que mais incomodou a cúpula da CBF na MP do Profut é a que restringe mandatos. Esse apego aos cargos é um dos aspectos que contribui para o desprestígio que políticos e cartolas têm com a opinião pública. O conceito de que todo cartola é igual só mudará com o fim da impunidade, essa praga nacional.



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