A dupla comoção de Muricy



muricyFOTO: Reginaldo Castro

Devo a Muricy duas comoções este ano. A primeira quando fez um desabafo e, com olhos marejados, disse que era difícil ser sério no futebol atual – sério, na minha leitura, é não envolver-se em conchavos, fazer politicagem, ser malandro, coisas do gênero. Era evidente a sinceridade do treinador, com olhos bordejados de lágrimas e queixos tremendo. Deixou a sala de imprensa para não chorar, ou fazê-lo escondido. A fala veio quando tratava dos bastidores são-paulinos e, o que todos apostam e os fatos comprovam, a indisposição do presidente Carlos Miguel Aidar em relação ao seu nome.

A segunda comoção aconteceu em sua despedida, a terceira, do clube do coração. Com a saúde afetada, mais magro, abatido, não era sombra daquele Muricy agitado, por vezes ranzinza e de respostas atravessadas que nos acostumamos a ver. Uma melancólica capitulação do tricampeão brasileiro. Defeitos e virtudes na balança, a imagem foi dolorosa. É difícil ver um sujeito vencedor – aqui não entro em detalhes sobre os senões a sua competência – com semblante de derrotado, vencido.

O futebol é uma roda viva pegando fogo. Não há trégua, a disputa acontece semanalmente e os grandes clubes só conjugam amistosamente o verbo vencer. Perder significa degolar. Muricy nunca deu sinais de prazer efetivo com o futebol. Estou me referindo a aparências. Sempre reclamou das dificuldades, das cobranças, o cenho quase perpetuamente carregado. Não é loucura pensar que os seguidos problemas de saúde sejam resultado de uma somatização de desgostos, inconformidades, internalizações. M

uricy entrou em 2015 sorumbático. Imagem do técnico sentado em um banquinho, na beira do campo, como que economizando energias e tentando preservar os sinais vitais, foram comuns. O tom de voz ameno, rotina só quebrada na coletiva de desabafo, e uma certa complacência revelaram um Muricy buscando a sobrevivência física e mental acima da sobrevivência profissional. Até porque, caso se aposente o técnico já tem seu nome registrado com louvor na história do jogo de bola.



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