São Paulo, um time que perdeu a alma



muricyFOTO: Ari Ferreira
O enigma do momento no futebol paulista é a falta de alma do time do São Paulo. Um grupo que iniciou o ano com a credencial de vice-campeão brasileiro, com elenco festejado e que em apenas dois meses de temporada virou presa fácil de seus rivais. Os quatro clássicos que a equipe disputou até aqui, sem marcar um mísero gol e pontuar em apenas um deles graças a desempenho grandiloquente do goleiro Rogério Ceni, contra o Santos, expuseram um time depressivo, sem criatividade, o avesso do que se pode chamar de competitividade. A sensação maior para o observador minimamente atento é que o São Paulo joga como se pisasse em areia movediça, o tempo inteiro com as pernas trancadas.

A goleada para o Palmeiras serviu para injetar autoestima no rival, que vivia jejum de dez jogos sem vencer clássicos, e aumentar a percepção de que o São Paulo está entorpecido. A energia de Muricy evadiu-se para algum lugar desconhecido. Na coletiva após mais um insucesso, o técnico apareceu abatido, sem encontrar respostas, quase que entregando os pontos. Mostrou desânimo, que, como aponta a etimologia da palavra, significa falta de alma.  O vice-presidente Ataíde Gil Guerrero foi aos microfones ontem para blindar o técnico, dizer que serviu chá de ânimo (de alma) a ele e que cobrará individualmente os jogadores. A fala do dirigente faz crer que os atletas precisam de um chacoalhão. Mas então o desânimo é geral? O que teria levado a esse abandono completo da alma? Podemos traçar um estranho roteiro no clube para especular como a alma escapuliu.

Em janeiro, bem no início da temporada, o presidente Carlos Miguel Aidar não teve pejo nenhum em pressionar publicamente Muricy. Reproduzo a declaração para não dar margem a interpretrações exageradas ou equivocadas:

— Ele tem contrato até dezembro de 2015. Vamos ser campeões com ele. Está devendo essa para a gente. Montamos o time que ele quis!

O São Paulo aparecia nas “casas de aposta” como um dos favoritos para tudo este ano. Não havia, salvo questões de bastidores desconhecidas, motivos para colocar o treinador assim contra a parede. A atitude trouxe à luz que não era de todo harmônica a relação interna. Ou que a relação do dirigente máximo do clube com o treinador está longe do ideal. Algumas respostas de Muricy em entrevistas, dizendo, em tom duro, de que para pressioná-lo “precisa ser grande” encaixaram as peças. O quanto esse desconforto reflete na falta de alma do grupo? O quanto é possível impedir o contágio, fazer a tal blindagem que o vice-presidente diz promover?

Alguns analistas apontam a falta de saídas táticas na equipe. Mas por que esse sintoma não existia no ano passado com praticamente o mesmo grupo? Não será o jogo engessado um resultado do desânimo que se instalou? Teria a saída de Kaká, um inconteste líder, contribuido para essa evasão da alma? Jogadores, técnico e cartolas não conseguiram ainda dar nenhuma resposta que aponte caminhos para a recuperação anímica, isso é o mais preocupante.



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