‘Glória a Deus’ não responde ao 7 a 1



dunga - mowa pressFOTO:  Mowa Press

 A surra de 7 a 1 para a Alemanha não será apagada da história. Não é possível passar uma borracha. Os fatos, a memória e as enciclopédias são cruéis com os protagonistas de uma tragédia desse tamanho. Quase oito meses depois, o futebol brasileiro ainda rumina aquela tarde de terça-feira no Mineirão, a maior humilhação do ludopédio nacional, mas o faz como se tivesse sido fruto do acaso. O fortuito que não se repetirá . Lamber as feridas como vítima e não culpado traz como consequência a inoperância. O não reconhecimento de que aquele resultado foi um rebento da soberba, da falta de olhar abrangente, da incapacidade de enxergar para onde está caminhando o futebol pelo mundo e aprender com isso.

Curioso o processo que viveu o jogo no país nesse pouco mais de um século de sua prática em nossas terras. Abandonamos o tal complexo de vira-latas descrito por Nelson Rodrigues, o que foi ótimo para nossa autoestima, e adotamos uma espécie de complexo de superioridade. No país do oito ou 80, que pula do pessimismo para o otimismo como quem atravessa a rua, os olhos andam tapados. Muitos acham que o Brasil segue sendo a pátria de chuteiras, para usar outra expressão rodrigueana, fecundo em craques, vocacionado para ser o maior. Agem omo se Pero Vaz Caminha, em sua carta de descobrimento, tivesse vaticinado: “Em se tratando de futebol, o talento lá está, tudo de melhor da bola se dá”.

Nos últimos dias tivemos alguns exemplos eloquentes da permanência dessa mentalidade. O atacante Robinho, em entrevista a programa de televisão, disse ter agradecido a Deus por não ter estado presente no massacre do dia 8 de julho de 2014. Afora a elogiável sinceridade de admitir que no fim das contas foi bom não ter sido chamado, o jogador aliou-se a quem atribui a entidades espirituais o vexatório placar. Essa corrente joga nas costas do imponderável, do sobrenatural, do apagão, ou de outra figura rodrigueana, o Sobrenatural de Almeida, a razão da goleada. Uma desrazão total. Para estes, ela não foi desdobramento do árduo trabalho de reconstrução do futebol alemão atrelado à cegueira sistêmica do futebol brasileiro. Isso é que é ser insistente na cegueira!

Dunga, eleito pelos velhos cartolas para conduzir uma nova era, também dá mostras de que o olhar para o próprio umbigo segue sendo a tônica. Disse à ESPN Brasil que Phillipe Coutinho vai bem na Inglaterra porque faz “coisas diferentes” no Liverpool. O técnico citou a movimentação e estilo do jogador brasileiro como atributos que outros na Europa não têm. Ou seja, a ideia de exclusividade técnica do jogador brasileiro mantém-se forte. Os dois melhores do mundo há várias temporadas são um português e um argentino, mas isso não é suficiente para arejar conceitos na pátria amada. Os ecos do 7 a 1 estão turvos. Há a dor e a lembrança, mas a reação necessária, que passe pelo reconhecimento de que o futebol brasileiro caiu de patamar, não há. Para reagir é preciso parar de apelar aos deuses e acabar com o mito da superioridade atávica. É preciso abrir a cabeça!



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