Arouca e o futebol em tempos líquidos



arouca
FOTO:  Ale Cabral
Há um ano, Arouca fazia a que, provavelmente, foi sua melhor partida pelo Santos. Atuação sublime em um jogo histórico para os alvinegros. O 5 a 1 no arquirrival Corinthians, uma surra que lavou a alma de muito santista maltratado pelos 7 a 1 (êta placar ecoante!) de 2005. O volante fez de tudo no duelo de 29 de janeiro de 2014, na Vila Belmiro. Parecia um ser onipresente, ubíquo, múltiplo. Um motor em todos os cantos, que fez gol, deu assistência, desarmou… Um desempenho de encher os olhos em uma data para cravar em almanaque.

Na última quinta, dia que marcou exato um ano da apoteose, Arouca desvinculou-se do Santos. Não nos moldes que jogadores importantes costumam fazer, com um “até logo”, “ainda voltarei a vestir essa camisa”, “obrigado por tudo”, etc.. Não, depois de cinco anos vestindo o preto e branco da Baixada sai do clube em clima pouco amistoso, com sua silhueta apagada do muro do CT da Vila (ação de vândalos, registre-se) e sem a pompa que a ocasião exigiria. O caos dos salários atrasados levou o jogador a entrar na Justiça contra o clube e requerer a rescisão. Um acordo, que envolveu o Palmeiras assumindo a dívida do Santos – nobreza de Nobre ou gesto para dar lição ao São Paulo (???) – evitou que o processo se arrastasse no tribunal.

Romantismo não anda muito em voga no futebol dito profissional. Causa espanto a este escriba, ainda assim, que jogadores com rica história em um clube saiam dessa forma, como se fosse um ato singelo, sem representatividade. Rasga-se a história como se fosse uma página descartada por um escritor indeciso. A paixão reza que um time é maior que um clube. E ainda bem que é assim. Mas os jogadores contribuem decisivamente para a construção da grandeza, sua permanência, aumento ou diminuição. É uma relação simbiótica, um se beneficia do outro. Daí espantar que mesmo em um contexto delicado, quando um clube deve direitos a um atleta, não se consiga fazer as coisas por vias que tentem preservar ao máximo a imagem.

Tirando uma casquinha da definição de modernidade líquida do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, podemos dizer que o futebol vive seus tempos líquidos também. De Relações líquidas, de amor transformado em ódio ou indiferença em uma piscar de olhos.

Arouca jogará pelo terceiro grande paulista em sua carreira. Não é o primeiro, nem será o último a ter tal trajetória. Casos temos em fartura. Até mesmo ídolos ainda maiores o fizeram. O ex-meia Neto, por exemplo, é associado ao Corinthians, mas jogou nos outros três. E nem por isso deixou de ser o Xodó da Fiel. É mais fácil apagar sentimentos que a história. Os primeiros precisam ser cultivados sempre, ao passo que a história está em fotos, vídeos, livros e relatos. Arouca não deixará de ser um sujeito que conquistou importantes títulos com a camisa do Santos, como Copa do Brasil,  Libertadores e três Paulistas. Negar isso é bobagem. Daí a estar no coração dos santistas é outro papo. No Palmeiras terá a oportunidade de construir novarelação e, um dia, sair pela porta da frente.


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