Fintas e firulas com o passado em romance



o drible Embora pulse forte no imaginário coletivo brasileiro, o futebol não costuma ser tema relevante na literatura de ficção nacional. Houve até literato que contra ele praguejasse, como Graciliano Ramos. O autor de Vidas secas e Memórias do Cárcere chegou a “intuir” que a modalidade seria “fogo de palha” entre nós. As crônicas de Nelson Rodrigues, é verdade, tinham um pé muito mais fincado na criação que na realidade. Os relatos dão conta de que o Anjo Pornográfico, com a visão prejudicada, mal via as partidas e essa condição permitiu maravilhas infinitas em figuras de linguagem saídas de sua pena.

Por esses dias li o ótimo O drible (Companhia das Letras, 218 páginas), do mineiro Sergio Rodrigues, que tem o futebol como figura essencial. A trama, envolvente, gira em torno de uma tumultuada relação de Murilo Filho, importante cronista esportivo da era romântica do nosso jogo de bola, apelidado de Charles Dickens pelos companheiros de jornal – entre eles Mario Filho, irmão de Nelson Rodrigues e nome que batizou o Maracanã -, com seu filho Neto, que não herdou do pai o amor pelo futebol e com o esporte tem até uma relação de enfado e certo ressentimento. A história situa-se já na velhice do protagonista, um octogenário cujas teias da difícil relação com o filho tentam se ordenar nos instantes derradeiros.

Na quarta capa do livro, o craque Tostão – não só na bola como nas letras – destaca a saborosíssima descrição do famoso lance de não-gol de Pelé no uruguaio Mazurkiewicz, na semifinal da Copa de 70. Lance que liga as pontas da história, constando do primeiro e último capítulos. Murilo reverencia os craques de sua época, como é frequente ocorrer no mundo real. Em especial um que, a seu ver, caminhava para ser superior a Pelé, não fosse uma trajetória trágica. Trata-se de Peralvo, o terceiro protagonista do livro, jogador surgido no América-RJ que, com dotes premonitórios, conseguia ver a aura das pessoas e assim seria vítima das suas próprias virtudes transcendentais.

Além de futebol, há doses agradáveis de cultura pop. Quem foi jovem nos anos 70 e 80 irá se lambuzar. A história, que consegue manter o bom ritmo e o suspense até o fim, é uma busca pela origem. Neto quer arrancar do pai o que aconteceu com Elvira, sua mãe, morta quando ele tinha cinco anos de idade. O rancor, a mágoa de cores parricidas, medeia o livro. O futebol entra e sai desse novelo, sempre nas associações feitas por Murilo, que vê a vida pelos personagens do futebol. O jornalismo também encontra eco, com as figuras da redação do Jornal dos Sports e os maneirismos de uma época.

O drible é uma combinação de tragédia com memória afetiva.  E o título faz jus a uma trama cheia de fintas e firulas com o passado.

Abaixo um trecho esplendoroso em que o personagem Murilo Filho desembrulha sua tese de como o rádio teria interferido na qualidade do futebol brasileiro:

“Já virou clichê de estagiário. O que eu acrescento de original nessa história é o seguinte: a divida do nosso futebol é pelo menos tão grande com o gongorismo dos nossos narradores também. Isso o Mario não diz, ninguém diz. Que sem a nossa vocação doentia para a metáfora bombástica, o papo furado, o causo inverossímil, a gente não teria chegado tão longe. Mais de noventa por cento do público só tinha acesso ao futebol pelo rádio, e no rádio qualquer pelada chinfrim disputada em câmera lenta por perebas com barriga d’água ficava cheia de som e fúria. A cada cinco minutos os narradores faziam um zé-mané qualquer aprontar um feito de deus no Olimpo. Claro que esse descompasso entre palavras e coisas era inviável a longo prazo, não tinha como se sustentar. E como obrigar a narração radiofônica a ficar sóbria estava fora de questão, restava reformar a realidade. Foi assim que o futebol brasileiro virou o que é: em grande parte por causa do esforço sobre-humano que os jogadores tiveram que faze para ficar à altura das mentiras que os radialistas contavam.”



  • Afonso rs

    É provável que tenha sido invenção de jornalista ou de narrador de futebol as fintas e jogadas maravilhosas que Mané Garrincha realizou em apenas três minutos iniciais da partida contra a União Soviética, na Copa do Mundo de 1958, colocando em pânico, uma Seleção que havia sido campeã olímpica em 1956 e da Eurocopa em 1960. Ou teriam inventado os cinco gols que Pelé assinalou na semifinal e final da da mesma Copa da Suécia. Sendo que um deles, o terceiro contra a Suécia, foi assinalado depois de dois chapéus consecutivos na pequena área, encobrindo simultaneamente dois imensos zagueiros suecos e finalizando, sem que a bola quicasse no terreno, de forma inapelável. Esquecem os pretensiosos que a Copa da Suécia foi transmitida para toda Europa pela Eurovision. Ou seja, os jogos já eram filmados na Europa, muito antes que “televisão” houvesse chegado por aqui. Essa única fonte dos atuais entendidos de futebol. Compreensível. Não sabem ler, menos ainda, o que escrevem. Vá dizer isso dos grandes astros do passado do Futebol Americano, Basebol e Basquetebol, nos Estados Unidos.

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