Mortes no Qatar – Um silêncio que incomoda



qatar 1Estádios no Qatar têm projetos lindos, mas mão de obra trabalha em condições precárias (FOTO: AFP)

A Copa do Mundo do Qatar acontecerá só em 2022, mas já está manchada. E a mancha não deve-se apenas à forte suspeita de compra de votos para eleição do país do Golfo Pérsico como sede. Além da corrupção, paira outra sombra, ainda mais tenebrosa, sobre o emirado: violações gravíssimas de direitos humanos básicos. Matéria do jornal britânico “The Guardian” desta semana conta que neste ano de 2014 morreu um trabalhador nepalês a cada dois dias nas obras de infraestrutura com vistas ao Mundial. A estimativa é que esse número seja substancialmente maior, podendo alcançar uma morte diária, se forem considerados também imigrantes originários de Índia, Sri Lanka e Bangladesh. Os relatos dão conta de condições de trabalho precaríssimas, em sistemas que assemelham-se ao de escravidão, para essa mão de obra que, em grande parte, é “patrocinada”, com pagamento dos custos de viagem e promessas de que esses homens encontrarão um “oásis no deserto” para suas vidas. Trata-se de regime chamado Kafala, comum na região, que faz o empregado ficar atrelado a um empregador.

Causa espécie a omissão da Fifa, que costuma, em várias situações, exibir-se como guardiã do tal fair-play e coíbe manifestações de cunho político e religioso em suas competições em nome da paz e das boas causas. A mesma entidade que faz campanhas contra o racismo, lava as mãos para o que acontece nas obras do Qatar. O seu presidente, Joseph Blatter, já até perguntou que “culpa tem o futebol nisso tudo?” Mas e a responsabilidade moral da entidade que organizará o evento e com ele lucra uma fortuna?

qatar2FOTO: AFP

A tese de que a imprensa inglesa promove uma campanha revanchista pelo fato de o país britânico ter perdido a eleição para sede do Mundial não se sustenta. Basta observar que as denúncias de violação têm sido feitas por várias fontes, com números de mortes divulgados pelas embaixadas de Nepal e Índia, por exemplo, e em relatórios da Confederação Sindical Internacional (Trade Union Confederation, em inglês). No site do órgão, o leitor pode encontrar informe de 2 de abril com a descrição de trabalhadores “vivendo em condições miseráveis em habitações improvisadas abaixo dos assentos do estádio Al Wakrah” e a estimativa de que quatro mil morrerão até o início do Mundial. Sharan Burrow, secretário-geral da confederação, diz que a Fifa poderia “fazer a diferença se exigisse a abolição da Kafala e o respeito às regras internacionais do trabalho”. Até agora a responsável pelo futebol mundial ficou inerte.

A Anistia Internacional, importante ONG de defesa dos direitos humanos, também fez fortes denúncias a respeito no dia 17 de novembro do ano passado. As más condições de trabalho, sempre envolvendo imigrantes da Ásia Meridional, deveriam fazer a Fifa pressionar o Qatar, a dar um ultimato ao país. Os interesses metidos em uma Copa do Mundo, que gira bilhões de dólares, são vários. A Copa de 2022 é uma enorme caixa preta. Já não bastasse a penumbra que recobre o relatório sobre compra de votos – que ainda não foi divulgado na íntegra – há esse escandaloso morticínio em obras



  • Jorge

    Concordo com esse comentário, mas não podemos esquecer o tamanho da corrupção nas obras da Copa aqui no Brasil e até agora nada de apuração, pelo contrário só aumentou haja visto a Operação Lava Jato na Petrobrás.Agora a célebre pergunta quem é o Brasil para poder comentar o caso da Copa no Qatar?

  • Pablo

    É um absurdo que a FIFA não venha cobrar boas condições de trabalho à estes trabalhadores. Quando a Copa foi aqui, qualquer fio de cabelo no chão era questão de “mimimi” por parte da FIFA. A entidade está sendo conivente com estas Mortes.

  • As vezes me pergunto se a FIFA é a extensão da CBF ou vice versa, como são parecidas essas duas instituições.

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