Mesmas praças, mesmos alambrados, mesmos argumentos…



alambrado

Allianz Parque não tem alambrados (FOTO: Divulgação)

Às vezes é de se perguntar se somos uma sociedade ou se vivemos na selva, com sua anomia de predadores versus presas. No futebol, que nada mais é que retrato do todo, em especial. Vejam agora que o tema da vez é a retirada dos alambrados, característica das novíssimas arenas. Com receio de invasão de campo, quebra-quebra, aquela baderna toda que tantas vezes vimos nos estádios por aqui, a promotoria desejava que a partida entre Palmeiras e Atlético-PR, no próximo domingo, passasse do moderníssimo Allianz Parque, recém-inaugurado, para o Pacaembu velho de guerra. Segundo o promotor Paulo Castilho, a partida no Paulo Machado de Carvalho traria duas vantagem pró-paz: os alambrados – que equiparam homens a animais, diga-se –  e o fato de estar o estádio situado em uma praça. Parece surreal, mas não é. A tradução mais óbvia é a seguinte: dada a extrema dificuldade de oferecer segurança a todos os envolvidos no evento, o ideal é que haja impedimentos físicos.

Ao saber dessa declaração logo pensei: está faltando a quem projeta estádios anexar praças ao croqui. Isso me fez lembrar da narrativa de um guia turístico na cidade de Mendonza, na Argentina, em uma viagem que fiz para lá. Contava ele que a cidade andina é repleta de praças porque o arquiteto que reprojetou a cidade após terremoto de alta magnitude desejava que as pessoas pudessem nelas se abrigar em caso de novos abalos sísmicos. A diferença, nada sutil, é que  no caso das arenas, os distúrbios temidos não são de ordem natural, mas por ação humana. E ações humanas que representem distúrbio à ordem pública devem ser coibidas. Como bem disse no programa Bate-Bola da ESPN o blogueiro do LANCE!Net Eduardo Tironi, declarações desse tipo representam derrotas da sociedade. Cortam-se os dedos para salvar os anéis.

Enquanto acontecia a entrevista coletiva de Castilho, passava na TV um jogo do Campeonato Inglês envolvendo o Manchester. Nele, o cenário era o clássico cenário da Terra da Rainha, com torcedores muito próximos do campo, a centímetros dos jogadores. Pensei: nada menos emblemático. A Arena do Corinthians foi inaugurada antes da Copa do Mundo, não tem alambrado e a única invasão registrada até agora foi a de um simpático cachorro vira-latas na partida entre o Alvinegro e o Coritiba. O Pacaembu, por sua vez, registrou em 2006 cenas de vandalismo com seus alambrados sendo derrubados por torcedores corintianos indignados com a eliminação da Libertadores. Isso para não falar das sanguinolentas cenas de torcedores se espancando com pau e outros objetos nos anos 90, o que levou a outra dessas medidas que no fundo são atestados de omissão: a proibição de bandeiras nos estádios. Quando vândalos querem agir, eles agem. Cabe às forças de segurança ter planos estratégicos para impedir isso. E há exemplos fartos pelo mundo, como o citado à exaustão relatório Taylor, que mostram ser a punição a grande arma de combate à violência desse gênero. Se repetimos que os brigões são minoria, como esses pequenos grupos seguem com acesso aos estádios? Esse é o xis da questão!

 

 

 

 



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