Bye Bye Brasileirão: a caravana da venda dos mandos de jogos



O Brasileirão atual tem me remetido a “Bye Bye Brasil”, clássico filme de Cacá Diegues, rodado no fim dos anos 70, que tem no elenco José Wilker, Bety Faria e, vejam só, Fábio Júnior (o cantor, não aquele ex-atacante do Cruzeiro que até meses atrás defendia o Boa Esporte). Alguns times têm embarcado em uma espécie de Caravana Holiday futebolística, fazendo as vezes de artistas mambembes da bola a apresentar-se para públicos diversos. No filme, a trupe se dirige para onde a televisão não chegou, situação bem diversa da atual, em que o meio eletrônico está em todos os lares e os direitos de transmissão do campeonato geram a maior fonte de renda dos clubes. Eles vendem seus mandos para injetar uma grana a mais, tapando no improviso buracos orçamentários produzidos por anos e anos de dívidas trabalhistas e fiscais acumuladas e gastos superiores à arrecadação (olha a Lei de Responsabilidade Fiscal aí, gente!).

sangalo - chico ferreiraArena Pantanal recebeu Santos 1 x 2 Galo (FOTO: Chico Ferreira/LANCE!Press)

Domingo, teremos o tradicional SanSão na Arena Pantanal, em Cuiabá. O palco mato-grossense já tinha sido casa do Peixe neste campeonato, no jogo contra o Atlético-MG (2 a 1 para o Galo). O Santos, com ridícula média de torcedores nos seus jogos na Vila Belmiro, volta a experimentar o exótico de tornar-se anfitrião no Centro-Oeste do Brasil para melhorar os cofres. E pensar que nos tempos de Pelé o Alvinegro circulava pelo Florão da América como convidado de gala, não como mercador da recepção. No ano passado, a despedida de Neymar, maior ídolo recente do clube, aconteceu em Brasília, contra o Flamengo, justamente para inflar as burras.

Mas o duelo paulista não está sozinho no item “clássico tipo exportação”.  O Botafogo, agarrado ao abismo, duelou contra o rival Flamengo em Manaus, na Arena Amazonas. Aliás, o time da Estrela Solitária, que assim como o Santos era cartão de visitas no meio do século passado, fez da capital amazonense seu segundo território. Foi lá, em mais um dos candidatos a elefante branco produzidos pelo Mundial, que o clube recebeu Corinthians e São Paulo. Na quarta passada, Goiás e Corinthians mediram forças no Mangueirão, em Belém do Pará. Nesse caso, pudemos observar outra faceta curiosa dessa espécie de Bye Bye Brasileirão. O mando era dos goianos, mas a torcida que tomou conta da arquibancada foi a do visitante. Com sua massa nacionalizada, o time paulista beneficiou-se da transferência de local e teve maior apoio. Na prática pode se dizer que o Corinthians foi anfitrião nos dois jogos contra o Goiás nesta edição. Isso havia ocorrido já na Copa do Brasil, quando o Bragantino levou a partida de seu mando contra o time do Parque São Jorge para a Arena Pantanal e proporcionou a Mano e sua turma sentir-se no lar, doce lar tanto na ida quanto na volta. E aqui há um ponto incômodo dessas frequentes vendas de mando: a equidade esportiva é chutada para o beleléu.

botafla danilo meloBotafogo x Flamengo foi disputado na Arena Amazonas (FOTO: Danilo Mello: Foto Amazonas)

Clubes que fizeram de seus estádios fonte imprescindível de receitas, como São Paulo, Corinthians, Atlétic0-PR, Inter e Grêmio, não integram a caravana. Ou melhor, vão apenas a reboque, como visitantes – que podem até sentir-se anfitriões, como ilustrado no parágrafo anterior. E então temos essa louca dicotomia, com parte dos clubes transformando suas casas em fontes de arrecadação, ao passo que outros, sem estádio próprio ou com estruturas não modernizadas, caem no assédio de empresários e governos e mercantilizam um dos aspectos que sempre fizeram mais diferença na disputa futebolística, o tão citado “fator casa”.

Como na música-tema do filme, composta por Chico Buarque: “Espera passar o avião….”

byebyebrasilCaravana Holiday, no filme Bye Bye Brasil, de 1979



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