Os técnicos e a culpa, máxima culpa



muricyMuricy ficou mais quieto no primeiro jogo pós-internação (FOTO:  Ari Ferreira)

A imagem de Muricy sentado em uma caixa de isopor ao lado do campo foi um dos retratos a sintetizar a semana esportiva. No primeiro jogo após deixar o hospital, onde ficou internado para tratar um quadro de arritmia cardíaca, o normalnente agitado técnico precisou se conter. Teve que trocar o “aqui é trabalho” pelo “aqui é saúde”. Acompanhou boa parte do duelo contra o Atlético-PR entre o sorumbático e o zeloso. A vida é o bem mais precioso! O coração queixou-se da pressão. A carga no futebol brasileiro, disse em entrevista, ”faz mal à saúde”. A explicação veio aguda:

– A gente tem uma cultura burra, muito burra, que quando ganha, ganha o time. Quando perde, perde o técnico. Aqui todo dia é loucura, e acaba fazendo mal à saúde, porque o técnico se sente culpado. Acha que é o culpado, mas não é.
Trocando em miúdos: os treinadores, de modo geral, absorvem o que vem das arquibancadas e também parte da crítica. Demasiado humano! O raciocínio de Muricy traça um diagnóstico da alma dos técnicos brasileiros, uma alma em farrapos. O cômodo vício da cartolagem de trocar de técnico diante da mínima adversidade, fazendo da necessidade de resultados imediatos uma filosofia, foi incorporada pelos próprios profissionais. Não só eles sabem que estão em apuros diante das derrotas, estejam ou não em início do trabalho, como lançam mão da obviedade para acreditar que a falta de resultados instantâneos é incompetência sua.

Dorival Júnior, em bela entrevista publicada no último sábado por este LANCE!, contribuiu para a percepção ao dizer que “projeto no Brasil é a maior utopia do mundo”. A queixa do comandante palmeirense de que os resultados são o parâmetro do julgamento da qualidade de um trabalho alinha-se ao desabafo de Muricy. Ambos sabem que não deveria ser assim e, no fundo, sonham que um dia seja diferente. Mas no batente, na rotina de treinos, viagens e jogos, a psiquê deles está vinculada ao conceito que por aqui vigora de longa data: são os culpados pelas derrotas.

dorivalPara Dorival Júnior, projeto no Brasil é utopia (FOTO: Reginado Castro)

Há quem recorra ao pensamento chucro para refutar essa ponderação. O pior deles é o de que ganham muito e, por isso, têm que mostrar serviço de excelência independentemente do contexto Como se fossem mágicos, não técnicos. Como se batessem pênaltis, cobrassem escanteio ou cabeceassem. Como se o futebol fosse um estalo de genialidade, e não estivesse enredado na complexidade de trabalhos em grupo.

Essa perversa lógica talvez tenha não só produzido essa culpa interior, que deve levar técnicos ao divã e até ao pronto-socorro, como moldado perfil e temperamento de alguns. As reações esquentadas a simples perguntas, e justificativas enganosas, são os escudos de quem se sente sob vigilância o tempo inteiro. O futebol brasileiro está dinamitando a saúde dos técnicos e dando seguidos tiros nos próprios pés. Se cartolas respondem à pressão terceirizando essa pressão, o resultado tem medida: 7 a 1.



  • Luiz Fernando

    No atual Futebol Brasileiro: TODO MUNDO É JAPONÊS!… Nunca essa frase foi tão verdadeira.

  • Hamilton

    O lance é curintia,que até qdo os gambás perdem,vcs dão o resultado errado.
    Melhorem meu povo!!!!!!
    CURINTIA 0 X 1 BOSTAFOGO

  • Dogmas, previsões, achismos, crendices e mau caratísmo são a tônica no futebol brasileiro. Times são campeões antes mesmo do apito final que lhes de o campeonato (título do Cruzeiro era liquido e certo à 15 rodadas do final do campeonato, agora já é questionado assim como a queda de Palmeiras, Flamengo eram inevítaveis).
    Culpa do técnico? Não, claro que não, mais sim de torcedores e boa parte da crônica esportiva que sai em busca de declarações nos bastidores dos clubes em sua maioria de gente de oposição louco para ver o circo pegar fogo e lá vem a famosa manchete, ” crise aqui ou acolá, mais uma derrota e o técnico cai”…..
    O futebol brasileiro acha que “malandragens” como a de Damião ontem, são coisas da esperteza de nosso futebol, pernas de pau que atingem a bola, adversário, pau da bandeirinha são brucutus que acabam elogiados por imprensa (nem todos antes que venha o mantra da culpa é da imprensa) que dá valor a estes caras e o que vemos são comentaristas no dia seguinte discutindo se o cara atingiu primeiro a bola ou o adversário.Genial! Até o dia que fazem lambança e ai o burro é o técnico que o escalou. O que era unanimidade vira rejeição e a culpa cai no técnico que tem que viver de humores da tal crônica e de pseudos-torcedores.
    Times tem que jogar no ataque como se isso fosse uma questão natural e qualquer alternativa para a falta de talentos já é rotulada de retranca. O que acham de Internacional que foi para o ataque e tomou 5? O trabalho do técnico é sempre comparado a de um burro. Muitos técnicos que eram deuses hoje são execrados, outros que eram a encarnação da medíocridade tornaram-se gênios (que o diga Abel Braga).
    Profíssionalismo? Esqueçam, aqui vale as crendices e o resultado do fim de semana. .

  • jorji

    Que absurdo, que comentário mais sem noção, o problema é a idade dos técnicos, é óbvio que os problemas de saúde acontecem, e quanto maior a idade, mais probabilidade de ficar doente e morrer, é uma simples questão biológica, quanto mais velho ficamos, mais próximo do fim, e fim de papo!

  • samuel sabino

    Ué, eles têm mesmo que sofrer pressão. Pelo salário absurdo que ganham, nada mais justo do que cobrá-los.

  • Ataide

    Perdoem-me mas, “técnico” que escala Leandrinho, Alan Santos, Souza (o enferrujado) e Damião, não pode continuar no emprego. Afinal ele os treina diariamente e os conhece bem; deveria saber que não são jogadores.

  • Gilberto Tadeu Sola

    O futebol é apaixonante, por isso tantos fanáticos e ufanistas. Porém a fragilidade do futebol atual tem várias faces, desde pessoas que vivem as custas do esporte, até os que não praticam mais sentem-se no direito de exigir coisas que estão além do que se pode dar ou receber.
    Dinheiro fácil foi um dos quesitos para a queda do futebol no Brasil, hoje tentamos resgatas jogadores habilidoso para tentam suprir a nossa deficiência. Com isso os jovens jogadores são enfraquecidos. O que devemos repudiar é o clubes, jogadores e técnicos serem reféns de torcedores que utilizam-se da força para aterrorizar. A paz deve estar sempre ao lado do esporte. Quem se utiliza da prática do terror deve ser banido do esporte. Jogador de nenhum clube pode ter medo de sua torcida, muito menos ser refém da imposição terrorista.
    Queremos o fim de preconceito e a paz no futebol.

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