A briga de egos no São Paulo e a escolha de Juvenal



juvenalFOTO: Eduardo Viana

Algum figurão disse certa vez que o poder é afrodisíaco. Já vi tantos créditos a essa frase que prefiro não ousar cravar o autor. Lembrei da expressão enquanto acompanhava a constrangedora entrevista do ex-presidente do São Paulo Juvenal Juvêncio à Fox Sports. Fiquei pensando na quantidade de ego, vaidade, ciumeira que estão por trás desse tiroteio entre ele e o atual ocupante do cargo, Carlos Miguel Aidar. Independentemente das razões e questões envolvidas, o nível em que a discussão aconteceu esta semana, com notícias de que os dois senhores poderiam até ter chegado às tais “vias de fato” – um enredo dantesco – mostra o quão esse tal de poder mexe com a cabeça e os hormônios, até mesmo de sujeitos experimentadíssimos como os dois contendores de agora.

Carlos Miguel Aidar foi figura de proa nas articulações que geraram o Clube dos 13 nos anos 80. Juvenal comandou o São Paulo recentemente com pulso firme, ou de ferro, como queiram, e medidas bastante controversas, como a que o permitiu uma nova reeleição após ardilosa releitura do estatuto do clube. A ponto de alguns verem traços de caudilho nesse homem de caudaloso discurso. A trajetória deveria ter dado a eles um tipo de habilidade política que não parecem ter. Cartolas vividos deveriam ter o tino desses políticos de longa data que estão no Congresso Nacional ou em cargos majoritários país afora. Não estou elogiando esses traços, mas considerando natural que o hábito de lidar com o jogo do poder leve a uma habilidade mínima em lidar com articulações e ações.  São as ditas raposas da política. Juvenal e Aidar agiram às avessas dessa prática. Partiram para o barraco. Não há um pingo de cordialidade ou bom senso.

Juvenal sentiu-se traído, evidente. Pouco tempo depois de ver seu sucessor eleito, o vê humilhá-lo. A demissão da coordenação da base é uma evidente humilhação. De todo-poderoso do clube, o antecessor foi tratado com desprezo. A punhalada nas costas teve requintes cruéis. Daria uma peça de Shakespeare, que usou e abusou da traição como mote, mas com alguns ajustes para conter a esculhambação. É difícil entender como alguém que vende a ideia de tanta sagacidade como Juvenal escolheu e apoiou uma pessoa que rapidamente foi capaz de dar-lhe um passa-moleque de tal proporção. E mais: na entrevista à Fox, que virou tema comentadíssimo em redes sociais, Juvenal ironizou à beça o antigo aliado dizendo que ele nem via os jogos do time e era tratado com desdém por outros cartolas. Por que então ungiu alguém assim para sucedê-lo? Não faz o menor sentido!

A impressão é de que Juvenal sai de cena com muitas derrotas: o Morumbi não esteve na Copa do Mundo e ele não conseguiu, no crepúsculo de seu mandato, aprovar a reforma do estádio. Depois do tricampeonato brasileiro, o Tricolor colecionou anos de aridez sob seu comando, chegando até mesmo a temer um rebaixamento no ano passado. E agora vê a equipe decolar no início do mandato de um sucessor que avalizou e que rapidamente o chutou para escanteio.

 



  • Neil Neri

    O poder corrompe…

MaisRecentes

No bipolar Brasileirão, o futebol é obra inconclusa



Continue Lendo

Guttman, uma bela e vitoriosa trajetória



Continue Lendo

Palmeiras x São Paulo: rivais contra o vexame



Continue Lendo