A humanização de Felipão



felipaoaoaofelipaoaoaoaoaFOTO: Ricardo Rímoli

A trilha sonora do retorno de Felipão ao Grêmio é a do Brasil profundo, que ainda lambe as feridas do 7 a 1. “Encosta tua cabecinha no meu ombro e chora. E conta logo tuas mágoas todas para mim.” Na voz de Fagner e Roberta Miranda, o velho hit, à moda do brega dor-de-cotovelo, poderia embalar o treinador. Ou a emotiva canção, com toques sertanejos, do saudoso Dominguinhos: “Estou de volta pro meu aconchego. Trazendo na mala bastante saudades“. Em São Paulo, poderia buscar em outro compositor que nos deixou há pouco, Paulo Vanzolini, o incentivo da virada: ”Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima”. Para ser tradicionalista, talvez mais a caráter esteja o aviso de musicado da dupla gaúcha Kleiton e Kledir: “Deu pra ti baixo astral. Vou pra Porto Alegre, tchau!”. O retorno à raiz!

O cancioneiro nacional é farto para a dor e a procura de refúgio. Felipão deixou claro que busca no clube do seu coração abrigo para a alma machucada. O homem de bigode basto, com o rosto rabiscado pelas rugas da vivência, implora agora por carinho. Palavras dele, escandidas sílaba por sílaba, no seu jeito clássico: CA-RI-NHO. Os olhos estavam marejados. Uma Imagem impactante, que mexe com o estereótipo do durão ao qual aprendemos a associá-lo. Na quinta faixa do antigo vinil poderia vir então, girando, Gonzaguinha: ”Um homem também chora, guerreiro, menino”.

A exposição da fragilidade humaniza e gera piedade. Em vez do discurso de que está tudo bem e toca o barco, o velho Scolari rogou por afago. Encontrou abrigo no Grêmio, nascedouro de suas glórias como técnico. Viu no Tricolor a chance do alento e, por que não?, da massagem no ego. A impossibilidade de responder negativamente ao clube pesou. Mas no convite, o técnico enxergou a chance de virar uma página e conseguir o afeto que precisa no momento. Uma escolha em que o emocional foi o norte.

Nada no pronunciamento de Felipão, seguido por uma sequência de respostas a jornalistas, foi mais tocante que o reconhecimento da busca por carinho. Naquele instante, o sexagenário técnico multicampeão exibiu seu lado de menino indefeso. Lado que murmureja em todos nós, por mais fortes que possamos nos mostrar. A cobrança por vitórias, renovadas vitórias, cega a sujeição permanente que estamos às derrotas.

A vida não breca e está sempre disposta a triturar os desatentos. Quando assumiu a Seleção pela segunda vez, Felipão parecia o cara certo para a Copa certa. Sua trajetória sempre foi acompanhada de uma exclamação: “A estrela de Felipão!”. Foi nela que pensei quando Pinilla, do Chile, acertou a trave, nas oitavas de final. Pois o Mundial mostrou que as estrelas são componentes da vida e também cadentes, têm ciclos, não atendem alguns eleitos a todo o momento. As fórmulas do passado podem não servir para o presente. A lusitana gira!

Tempos depois, Felipão fragilizado assume o Grêmio, é aplaudido e exaltado: “Deu pra ti, baixo astral. Vou pra Porto Alegre. Tchau!”



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