Fomos todos para o inferno!



infernal
Foto:  Pedro Ugarte/AFP
Por mim se vai à cidade dolente/ Por mim se vai à eterna dor/ Por mim se vai à perdida gente/ Justiça moveu meu alto criador… Deixai toda a esperança, vós que entrais”.

Os versos gravados no pórtico do inferno de Dante apresentam-se agora ao futebol brasileiro. Fomos todos para as labaredas após os 7 a 1 da Alemanha. Curiosamente, nossas glórias crepitam no lugar para onde Felipão mandou metaforicamente seus críticos alguns dias antes: – Vou fazer do meu jeito. Gostou, gostou. Se não gostou, vai para o inferno! O problema é que o técnico, campeão em 2002, desceu para o porão junto, de mãos dadas com seus alvos. Ironia das ironias. O inferno eram os outros, mas no fim ele foi para todos. O massacre alemão teve que encontrar parentes em miniaturas do futebol. Zaire, atual Congo, e Haiti foram as únicas seleções a irem para o intervalo de um jogo de Copa com cinco gols nas costas. Lá atrás, em 1974. Eis a ilustração do nosso inferno.

Não houve “imagina na Copa” para tal borrão na história. Isso não faz do improvável obra do acaso. A Alemanha, sua estratégia nesses anos todos e seu plano de metas nos levaram ao mais duro dos nocautes. Contou com o auxílio determinante de erros táticos e verbais. Não, não tínhamos a mão na taça, como pregava bizarramente Parreira. Tínhamos a mão na brasa. Víemos de Weggis, Dunga e desaguamos nas águas ferventes do Mineirazo. Foi a modernidade que engoliu o atraso no dia 8 de julho passado.

A barca do inferno está pintada de verde-e-amarelo. Terá que mudar seu rumo, dirigir-se para o purgatório com seus 200 milhões de ocupantes lambendo queimaduras de muitos graus. O rumo precisa ser outro. Não dá mais para contar com o talento puro, que sempre brota nos gramados nacionais. Como vimos, ele não tem mais a capacidade de exorcizar os demônios da desorganização, desde o descuido com a formação de jogadores até a falta de inovação. O céu da Copa das Confederações foi dopante para a comissão técnica. A fórmula de um ano atrás, com hino à capela, pressão na saída de bola no início do jogo e barulho na arquibancada mudou a percepção da água para o vinho. Despertaram a mais clássica das características brasileiras.

O pessimismo da sarjeta deu lugar ao otimismo sem freios. A sensação é de que em um ano apenas se cumpriria protocolo esperando um título que viria das forças da natureza. Força que, na definição arrogante de Parreira transformou-se em tsunâmi. Como se o novo futebol alemão, que já tinha feito quatro na Argentina e na Inglaterra em 2010, tivesse sido favorecido pelos ares da tarde de uma terça-feira. A porta da cidade dolente estava aberta para a Seleção e não sabíamos. Felipão entregou, sem querer, que estava alheio à força dos rivais. – Alguns adversários nos surpreenderam. Jogaram mais que a gente esperava! O borbulhar do caldeirão foi adiado na trave de Pinilla, na prorrogação contra o Chile, para subir seu fogo no mesmo Mineirão, dez dias depois. O futebol brasileiro arde no tórrido inferno e tenta limpar a sua maior vermelhidão.

TRÊS TOQUES U

ma mistura de 86 com 90

Alemanha e Argentina é final batida em Copas. Aliás, é jogo batido. Sétimo confronto na história, a terceira final. Em 86, havia Maradona e, ainda assim, uma reação no fim quase pôs tudo a perder – jogão!. Em 90, partida morna, pênalti polêmico e vitória da superioridade germânica sobre um rival que chegou aos trancos e barrancos. A decisão deste domingo parece mescla das duas. Messi no auge e Alemanha melhor.

Leitura do jogo

O meio de campo é o coração dessa Alemanha de Joaquim Löw. O toque de bola do trio Schweinsteiger, Khedira e Kroos, com ajuda de Lahm pela direita, regula o jogo. Ao optar por manter a equipe aberta pelos extremos, como se tivesse asas, Felipão ignorou a potência rival, abriu caminho onde não poderia. Rendeu-se à lógica de que o Brasil é sempre favorito em vez de dobrar-se à inferioridade atual.

Disputa ferrenha

Argentina e Holanda jogaram com a cautela na ponta das chuteiras. Parecia um desfile de dois blocos, que simultaneamente se acompanhavam. Os pênaltis eram o fim mais evidente. O protagonismo de gente da defesa, em especial de Mascherano e Vlaar, estava anunciado nas propostas. Messi e Robben, que poderiam luzir, foram anulados. A decisão foi para a cal e a eficiência argentina prevaleceu desta vez.



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